segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2012 com amor e pé no chão

Ponto de vista - 02 jan. 2012

Para iniciar um novo ano e renovar as esperanças, trazemos o artigo de Chico Alencar intitulado "O novo em nós", publicado na página 20 d'O DIA de hoje. Desejamos um 2012 de conquistas e superações aos nossos leitores. Os grifos são nossos:


"Calendário é engenhosa invenção para contar o tempo. Sua serventia maior é nos estimular a fazer o balanço do já vivido e estabelecer metas para o que virá.

O tempo da História não é igual ao nosso. Essa ‘senhora’ elegante e distante, não nos dá muita bola. É velha mestra de alunos desatentos, quando não ‘matadores’ de suas aulas! Mas se nem sempre podemos mudar esse mundo tão desigual, que ao menos consigamos nos transformar, no plano pessoal.

Aprendo com pessoas iluminadas, que encontrei na estrada da vida, a caminhar com calma bovina e leveza de passarinho. É necessário ter determinação de onça na ‘caça’ dos nossos ideais, mas combiná-la com a gratuidade do riacho em que ela vai beber água. Só assim não seremos contaminados pela doença do século, a ansiedade.

Ser flor do campo, que se basta com sol e chuva, e não inveja os outros elementos. Viver em harmonia: saber-se pedra, árvore, húmus, nada ter a perder. Fraternizar-se com os que têm patas e asas, pulsar com tudo o que pulsa, enquanto o ‘tambor do peito, amigo cordial’ mantiver o ritmo.

Como a ave do caminho, cuidar de ser saudável: espírito e matéria na comunhão que a sociedade compartimentada nega. Malha-se o corpo para a vaidade, não para a saúde, e ‘engorda-se’ a alma com antidepressivos.

Chamar de volta o trapezista dos circos da nossa infância: com equilíbrio, nada em nós exagerar ou excluir. Fazer do necessário o suficiente e viver mais simplesmente, para que simplesmente todos possam viver. Resistir ao consumismo que nos consome.

Pés no chão, firmes e suaves, descalços de preconceitos e maledicências, buscar o que nenhuma tecnologia ultramoderna da comunicação oferece: conectar-se ao todo-poderoso Amor!"

* Chico Alencar é professor e deputado federal pelo PSOL

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Os Arquivos de Sherlock Holmes - resenha



Os arquivos de Sherlock Holmes
Sir Arthur Conan Doyle
Martin Claret
228 páginas. R$ 17,50.
www.martinclaret.com.br


“... era brasileira de nascimento... Filha do sol e da paixão. Ela o amou como só essas mulheres podem amar.” (O problema da ponte Thor)

Assim Arthur Conan Doyle, um escritor e médico nascido em Edimburgo (Escócia) no ano de 1859, descreve a única personagem brasileira da obra que resenhamos. A fama desse autor deve-se, certamente, por suas obras cujo personagem principal é o detetive Sherlock Holmes; embora, além da literatura criminal, também tenha escrito peças de teatro, poesias e obras de não-ficção; entre outros gêneros.

“Os arquivos de Sherlock Holmes”, publicado pela editora Martin Claret, é uma tradução de Casemiro Linarth da obra de título original “The Case-Book of Sherlock Holmes”, uma coleção de contos publicados pela primeira vez entre 1921 e 1927 em revistas da Inglaterra e dos EUA. Foi a derradeira obra do autor sobre Sherlock Holmes, personagem o qual ele já havia “matado” em 1893, mas que decidira “ressuscitar” em 1903, após uma enxurrada de apelos de seus fiéis leitores.

Como nos quatro romances e nos outros quatro contos que formam o chamado cânone do personagem, ficamos em grande expectativa durante o desenvolvimento da narrativa, tentando, nós mesmos, encontrar as pistas e desvendar os mistérios; mas o grande detetive sempre nos surpreende. Sherlock Holmes é sempre procurado por seus clientes devido a sua fama e reconhecimento. No conto “Os três Garriders”, o personagem seu amigo, dr. Watson, narra que Holmes teria recusado o título de cavaleiro em 1902. Uma brincadeira perspicaz, pois foi exatamente o ano em que o autor do conto foi condecorado com tal título, passando a ser chamado de Sir Arthur Conan Doyle.

Chama-nos atenção, como casos, digamos, excepcionais, que dois contos são narrados pelo próprio protagonista, Sherlock Holmes: “O soldado pálido” e “A juba do leão”. O ritmo da narrativa é bem diferente dos casos narrados pelo seu (quase) inseparável amigo, Watson. Também damos destaque, neste último conto citado, ao trecho em que o sisudo celibatário Sherlock Holmes se encanta por mulher:

“Não se podia negar que ela embelezaria qualquer reunião no mundo. (...) Raras as vezes senti atração por mulheres, pois o cérebro sempre governou o meu coração, mas me bastou olhar aquele rosto perfeitamente delineado, delicadamente colorido pelo frescor suave das terras baixas, para compreender que nenhum jovem poderia atravessar-se no seu caminho e sair ileso”.

As mulheres ibero-americanas por sinal, com suas personalidades fortes, ganham destaque do autor em três contos: A brasileira citada no início, uma peruana (O vampiro de Sussex) e uma outra espanhola cuja família “governou Pernambuco durante gerações” (Os três frontões).

“A inquilina do rosto coberto” é um conto muito perspicaz, que foge de qualquer padrão pelo seu desfecho; pois nele Holmes age de forma diferente. No mesmo conto, e num outro (O velho solar de Shoscombe), alguns crimes não são necessariamente punidos.

Holmes, como conhecemos de outras obras, não se importa em receber os créditos por decifrar os mistérios, mas trabalha mesmo pelo desafio mental do método da lógica dedutiva. No ótimo conto “Cliente Ilustre”, o que o motiva é o desafio:

“Se é mais perigoso que o Prof. Moriarty vale a pena conhecê-lo”.

Não é a toa que CSI é a série mais vista em todo o mundo nos dias de hoje. Tal qual Batman, o famoso herói dos quadrinhos e do cinema, tiveram no personagem Sherlock Holmes sua referência; e conquistam mais fãs a cada dia.

Perto da estréia de mais um filme sobre Sherlock Holmes no cinema, recomendamos a leitura da obra do Sir Arthur Conan Doyle. Sempre, sempre o livro será melhor. O hábito de leitura nunca deve ser deixado de lado, preterido pela televisão ou pela tela grande. O personagem Sherlock Holmes, inclusive, valoriza a cultura geral... De tudo se dever ler um pouco. Em vários contos, ele encontra nos livros as chaves para desvendar os mais intrincados mistérios:

“Sou um leitor que devora tudo. (...) Eu sabia que tinha lido em alguma parte num contexto inesperado.” (A juba do leão).

Assim também o é em nossas vidas. O livro muda as pessoas porque as ajuda a decifrar o mundo.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal, como no ano passado

Ponto de vista - 24 dez. 2011

Na véspera do Natal deparei-me com a deliciosa crônica de Zuenir Ventura, intitulada "Tudo sempre igual", publicada na página 7 d'O GLOBO de hoje; que, por isso, publico aqui. Deixamos, também, os nossos votos de um Feliz e hamornioso Natal. Os grifos são nossos:


"Vou me repetir mais uma vez. Todo ano é assim, parece reprise. Mas o que se há de fazer, se tudo nessa época é repetitivo: a música, a rabanada, os amigos-ocultos, os presentinhos, os votos, os engarrafamentos, o movimento das lojas, sem falar no dinheirinho compulsório para os porteiros, o mendigo de estimação, o guardador de carro, os entregadores de jornais, de remédio, de pizza, garis e carteiros. Contrariando o que dizia o famoso soneto de Machado de Assis —"Mudaria o Natal ou mudei eu?" — não mudou o Natal nem mudei eu. Ainda por cima, a data cai sempre nos dias em que tenho de escrever ou publicar coluna: no próprio dia 25, como em 2010, e na véspera, como agora. Como evitar o tema?

A exemplo dos Natais anteriores, o tempo e a paciência foram poucos para cumprir todos os compromissos de fim de ano, já não digo de compras, que minha mulher faz, mas o atendimento de convites. Parece que todos os lançamentos, todas as noites de autógrafos, todas as exposições, todos os almoços e jantares de confraternização foram deixados para acontecer nesse período. Não poder ir a todos, ter que escolher uns em detrimento de outros é uma das aflições dessa época. Mas o pior do Natal é sua submissão ao consumo, o que acaba fazendo dele "um orçamento", como já dizia Nelson Rodrigues.

Graças a isso, é a mais colonizada de nossas principais efemérides, a começar pelo Papai Noel. Não há figura mais inverossímil e anacrônica, inclusive pelo traje, do que o bom velhinho todo agasalhado, com aquele gorro ridículo, arrastando o saco nas costas no calor deste começo de verão e rosnando "Rou, rou, rou". No entanto, continua popular. Piegas e cafona, mas popular, mesmo entre os que não acreditam nele. Por que será? Talvez seja porque, se o réveillon é a euforia, e o carnaval, a orgia, o Natal é o eterno retorno à infância — o momento da fantasia, do faz de conta.

A verdade é que, apesar do desvirtuamento de sentido, a data continua impregnada de simbologia e significados, carregando sonhos, desejos e esperança, tudo do que se precisa. Eu, por exemplo, não consigo deixar de fazer uma viagem nostálgica a um longínquo passado sempre que ouço o "Noite feliz". É como se, ainda coroinha, estivesse ajudando uma missa de meia-noite rezada em latim, claro, no colégio de padres de Ponte Nova, em Minas Gerais.

Comecei repetindo e vou terminar da mesma maneira, desejando para vocês um nada original, mas sincero feliz Natal."

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Quantos livros você lê por ano?

Ponto de vista - 15 dez. 2011

A matéria de André Miranda, intitulada "O longo caminho até as metas do MinC ", publicada na página 12 do Segundo Caderno d'O GLOBO de hoje, sobre o anuncio das metas do governo federal expressas no Plano Nacional de Cultura, dá números alarmantes sobre a falta de hábito de leitura do brasileiro em geral. A média de livros lidos anualmente, digamos, por prazer, não chega a dois; quando o mínimo ideal, seriam quatro. Os grifos são nossos:


"[...] uma das metas do PNC [Plano Nacional de Cultura] é que todos os municípios brasileiros tenham uma biblioteca pública. Até o fim do ano, de acordo com a Fundação Biblioteca Nacional, apenas 18 dos 5.565 municípios brasileiros ainda não terão recebido o kit para a implantação de suas bibliotecas, o que deve acontecer em 2012. A partir do recebimento do kit, os municípios têm três anos para implantar sua biblioteca. Atualmente, há 5.530 bibliotecas públicas no país.

Além da presença física, outra meta do PNC é que cada brasileiro leia quatro livros por ano, sem contar aqueles do aprendizado formal.

— Para se chegar à meta, será preciso trabalhar muito. Hoje, a média é de 1,3 livro lido por ano entre não estudantes — afirrna Galeno Amorim , presidente da Biblioteca Nacional.— Mas é possível. Ao criarmos mais bibliotecas, ampliarmos os pontos de venda e baratearmos os preços, o índice de leitura vai aumentar — promete."

domingo, 11 de dezembro de 2011

Livros: afeto e provocação

Ponto de vista - 11 dez. 2011

Ansioso para ler "O Cemitério de Praga" (Record, 480p.), gostei muito da entrevista concedida pelo escritor Umberto Eco ao jornalista Guilherme Aquino, publicada hoje na página 4 do Segundo Caderno d'O GLOBO sob o título "O mestre dos livros". Destaco as respostas para duas perguntas da dita entrevista. Os grifos são nossos:


"O senhor gosta de desafiar o leitor com fatos e palavras...

- Somos 7 bilhões no mundo, então o número dos meus leitores é mínimo, mas alguns querem um desafio, querem que um livro seja uma provocação para a inteligência, um esforço. Os editores acham que o leitor quer coisas fáceis. Mas, para isso, ele já tem a televisão. Ninguém consegue explicar por que o único livro fácil que escrevi, "A misteriosa chama da Rainha Loana" (2004), não interessou a ninguém. Tudo chega mastigado. Escrevo para os masoquistas que querem ser maltratados.


Qual é a sua relação com a tecnologia? Acredita que o livro em papel resistirá?

- O livro de papel tem ainda um destino a ser cumprido, pelo menos no sentido técnico. Temos a prova científica de que um livro de papel dura 550 anos. Eu tenho na minha biblioteca livros produzidos cinco séculos atrás. Não temos ainda a capacidade de provar que um material eletrônico dure mais do que X anos, mas certamente não será de 500 anos, porque existe uma renovação contínua. Há ainda o fato de que você encontra no porão de casa o livro que leu quando tinha 10 anos, com os seus sinais nas margens... Se amanhã encontrar no porão um pen-drive, ele não vai lhe dizer nada. Com o livro, se estabelece uma relação física, carnal, afetiva. Enfim, é muito melhor para uma criança levar para a escola um iPad com os dicionários do que levar todos os volumes nas costas. Mas é muito difícil ler "Guerra e paz" num e-book. Com o tempo, mudei levemente de opinião. Recentemente fiz viagens de 20 dias e levei 20 livros pesados. Na segunda vez, carreguei 20 livros no iPad."

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Tempo desperdiçado deve ser indenizado

Ponto de vista - 05 dez. 2011

Muito útil para consumidor a matéria assinada por Nadja Sampaio, intitulada "Livro defende indenização por desperdício de tempo ", publicada na página 42 do d'O GLOBO do último Domingo sem o destaque que merecia. Os grifos são nossos:


"Existe um novo e relevante dano no mercado de consumo, que até agora foi desprezado pelo Direito: o tempo que o consumidor perde para reclamar seus direitos deve ser indenizado, pois tem um impacto negativo na sua vida. A tese defendida pelo advogado Marcos Dessaune no livro "Desvio produtivo do consumidor" diz que este, quando precisa resolver uma reclamação, vê-se forçado a desperdiçar seu tempo - desviando-se de atividades como trabalho, estudo, descanso, lazer - para tentar resolver problemas que o fornecedor tem o dever de não causar.

Ter que retornar diversas vezes à loja ou à assistência técnica para reclamar de um produto com defeito pouco tempo depois de comprado: telefonar insistentemente para o SAC de uma empresa para cancelar um serviço não solicitado ou urna cobrança indevida e levar o carro várias vezes à oficina são alguns exemplos citados no livro.

- Tais situações corriqueiras ainda não haviam merecido a devida atenção do Direito brasileiro. Embora causem grande prejuízo ao consumidor, trata-se de fatos lesivos que não se enquadram nos conceitos tradicionais de dano material indenizável, de perda de uma chance, tampouco podem ser banalizados como meros dissabores ou percalços na vida do consumidor, como vêm entendendo muitos juízes e tribunais - explica.

Segundo Dessaune, a missão de qualquer fornecedor é oferecer produtos e serviços de qualidade, condição essencial para que o consumidor possa empregar seu tempo nas atividades de sua preferência.

- Constatei em minha pesquisa que o tempo de que a pessoa dispõe na vida caracteriza-se pela escassez, inacumulabilidade e irrecuperabilidade. Trata-se do bem primordial e possivelmente mais valioso da pessoa, só comparável à sua saúde física e mental. Segundo averiguei, o novo paradigma de investigação do dano injusto em lugar do tradicional ato ilícito, no âmbito da responsabilidade civil contemporânea, possibilitaria a ampliação das hipóteses de danos indenizáveis, como as situações de desvio produtivo do consumidor— diz."

domingo, 4 de dezembro de 2011

TV e controle

Ponto de vista - 04 dez. 2011

Entre as várias cartas de leitores publicadas na página 8 d'O GLOBO de hoje (04 dez. 2011) , destaco a de Erico Tachizawa - intitulada
"A TV e as crianças". Concordo com ele. Os grifos são nossos:


"Em nome da liberdade de expressão, cenas impróprias para a formação de nossos filhos poderão vir a ser transmitidas em qualquer horário, pelas emissoras de TV. O argumento de que cabe aos pais fazerem esse controle é falacioso, já que os responsáveis, em sua maioria, trabalham fora e chegam em casa à noite. Além disso, quantos terão o discernimento de um juiz para ler as mensagens nocivas que muitas vezes aparecem ocultas na programação? E como devem proceder quando uma cena que julgarem imprópria aparecer em um inofensivo programa a que estejam assistindo? Devem desligar a TV com a rapidez de um raio ou mandar seus filhos menores saírem imediatamente da sala e só retornarem após os comerciais? - Paulo Marcus Sampaio Eloy (Rio)"

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Figadal literatura

Ponto de vista - 30 nov. 2011

Hoje na coluna de Francisco Bosco, em artigo intitulado "Minhas doenças", na página 2 do Segundo Caderno d'O GLOBO, um exemplo muito forte de identificação com os livros e com a literatura. Confira o trecho (os grifos são nossos):


"[...] Já adoeci também lendo livros; livros longos, exigentes, de alta concentração de Vida. Adoeci com certa gravidade enquanto lia as 1.600 gloriosas páginas de “Guerra e paz” [do escritor russo Leon Tolstói]. Diversas vezes sonhava com a história do livro: tão forte é ele que sua realidade prevalecia sobre os vestígios de meu dia. Um livro mais real que a realidade: não é outra a exigência da literatura. Antonia, com quem sou casado, atribuía minha doença ao livro, e pedia que eu o abandonasse. [...]"

* * * * *

Dia desses eu lia no Skoob (a rede social de livros) a sinopse e resenhas sobre o livro "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiévski (Editora Martin Claret) - outro clássico escritor russo. Praticamente todos, mesmo os que não tinham gostado, destacavam a profundidade do livro. E você leitor: Já teve uma relação tão íntima com alguma obra? Ficou pensando na história durante o dia? Chegou ao ponto de passar mal ou sonhar com personagens nos dias de leitura?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A Ética e os clássicos

Ponto de vista - 28 nov. 2011

Destaco o artigo do escritor Frei Betto, autor de "Batismo de Sangue", intitulado "Águas da ética", que foi publicado Domingo (27/11) na página 7 d'O GLOBO. Um excelente artigo sobre a Ética, tão necessária nos dias de hoje, trilhando o caminho de vários pensadores; autores de vários clássicos da literatura universal. Os links e os grifos são nossos:


"Sócrates foi condenado à morte por heresia, como Jesus. Acusaram-no de pregar novos deuses. Tal iluminação não lhe abriu os olhos diante do céu, e sim da Terra. Percebeu não poder deduzir do Olimpo uma ética. Os deuses do Olimpo podiam explicar a origem das coisas, não ditar normas de conduta.

A promiscuidade no Olimpo não convinha traduzir-se em atitudes; assim, a razão conquistou autonomia frente à religião. Em busca de valores capazes de normatizar a convivência humana, Sócrates apontou a nossa caixa de Pandora: a razão.

Se a moral não decorre dos deuses, devemos erigi-la. Em Antígona, peça de Sófocles, em nome de razões de Estado Creonte proibiu Antígona de sepultar seu irmão Polinice. Ela se recusou a obedecer a “leis não escritas imutáveis, que não datam de hoje nem de ontem, que ninguém sabe quando apareceram”. Eis a afirmação da consciência sobre a lei, da cidadania sobre o Estado.

Platão ensinou a discernir realidade e ilusão. Em República, lembrou que, para Trasímaco, a ética de uma sociedade reflete os interesses de quem ali detém o poder. Poder é o direito concedido a um indivíduo ou conquistado por um partido ou classe social de impor a sua vontade aos demais.

Aristóteles nos arrancou do solipsismo ao associar felicidade e política. Mais tarde, Santo Tomás de Aquino, inspirado nele, formulou uma ética política ao priorizar o bem comum e valorizar a soberania popular e a consciência individual como reduto indevassável.

Maquiavel, na contramão, destituiu a política de ética e a reduziu ao jogo de poder.

Para Kant, a grandeza do ser humano reside na ética, na capacidade de se autodeterminar a partir da própria liberdade. Há em nós um senso inato do dever. Não deveríamos deixar de fazer algo por ser pecado, e sim por ser injusto. A ética individual deve se complementar pela ética social, já que não somos um rebanho de indivíduos, mas uma sociedade que exige, à boa convivência, normas e leis e, sobretudo, cooperação de uns com os outros.

Hegel e Marx acentuaram que a liberdade é sempre relacional, consiste na construção de comunhões com a natureza e os nossos semelhantes. Porém, a injustiça torna alguns dessemelhantes.

Nas águas da ética judaico-cristã, Marx ressaltou a irredutível dignidade de cada ser humano e, portanto, o direito à igualdade de oportunidades. Em outras palavras, somos tanto mais livres quanto mais construímos instituições que promovam a felicidade de todos.

A filosofia moderna abriu novo campo de tensão ao frisar que, respeitada a lei, cada um é dono de seu nariz. A privacidade como reino da liberdade total. Deslocou a ética da responsabilidade social (cada um deve preocupar-se com todos) para os direitos individuais (cada um que cuide de si).

Tal distinção ameaça a ética de ceder ao subjetivismo egocêntrico. Tenho direitos, prescritos numa Declaração Universal, mas e os deveres? Que obrigações tenho para com a sociedade em que vivo? O que tenho a ver com o faminto, o excluído e o meio ambiente?

Daí a importância do conceito de cidadania. Os indivíduos são diferentes e, numa sociedade desigual, tratados segundo sua importância na escala social. Já o cidadão, pobre ou rico, é dotado de direitos invioláveis, e está sujeito à lei como todos os demais.

Agora, a humanidade desperta para os efeitos nefastos de seu modo de subjugar a natureza.

A recente consciência ecológica amplia a noção de ethos. A casa é todo o Universo. Não se fala de Pluriverso, mas de Universo. Há uma íntima relação entre todos os seres visíveis e invisíveis, do macro ao micro, das partículas elementares aos vulcões.

Segundo Teilhard de Chardin, o princípio da ética é o respeito a todo o criado para que desperte suas potencialidades. Assim, faz sentido falar da dimensão holística da ética.

O ponto de partida da ética foi assinalado por Sócrates: a polis, a cidade. A vida é processo pessoal e social. A ótica neoliberal erra ao dizer que cada um se contente com o seu mundinho.

Mas fica a pergunta de Walter Benjamin: o que dizer a milhões de vítimas de nosso egoísmo?"


* * * * *

O blog incluiu links que não constavam do original. São livros do catálogo da Martin Claret, editora que se destaca no mercado por priorizar os clássicos da literatura universal, publicando-os em formato de bolso e num preço bastante acessível; o que é uma louvável ação de promoção da leitura.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ministro fanfarrão

Ponto de vista - 23 nov. 2011

Destaco o artigo do antropólogo Roberto DaMatta, autor de "Carnavais, malandors e heróis", intitulado "Mentira & politicagem", que foi publicado hoje n'O GLOBO e também no Estadão. Ele expressa muito bem a nossa estupefação com caso recente do Ministro do Trabalho, que mentiu no Congresso e uma desmascarado, o que aconteceu?... Nada. Continua ministro. O grifo é nosso:

"Seria mentira uma realidade da política brasileira? Sobretudo neste momento em que o governo de dona Dilma constitui uma Comissão da Verdade, mas um dos seus ministros - justamente o do Trabalho que é o apanágio do seu partido (o dos trabalhadores) - mente de modo claro, aberto, insofismável e - mais que isso - com uma verve e um nervo dignos de um astro de novela das 8?

Fiquei deveras assombrado por sua ousadia e desenvoltura de ator, quando - perante o Congresso - ele diz não conhecer o empresário com quem jantou, andou de avião e contemplou - com um olhar digno de um Anthony Hopkins - um pedaço de papel com o nome da questionada figura, numa simulação dramática que era a maior prova de que mentia descaradamente.

Ou seja, para o governo é mais fácil resgatar o passado fabricado pelo autoritarismo do regime militar - um momento no qual opiniões conflitantes eram proibidas e que engendrou oposições à sua altura e igualmente fechadas; passando por alto pela Lei da Anistia - do que demitir um ministro mentiroso. Continuamos a refazer o que não deveria ter sido feito, e a não fazer o que o bom senso exige que se faça.

* * * *

Viver em sociedade demanda mentir. Como exige comer, confiar e beber - mas dentro de certos limites. Os americanos distinguem as "white lies" (mentiras brancas ou brandas) - falsidades sem maiores consequências - das mentiras sujeitas a sanções penais e éticas.

Pois como todo mundo sabe, a América não mente. Ela está convencida - apesar de todas as bolhas e Bushes - de que até hoje segue o exemplo de George Washington, seu primeiro presidente; um menino obviamente neurótico que nunca mentiu. Na América há todo um sistema jurídico que dá prêmios à verdade muito embora, num lugar chamado Estados Unidos, minta-se à americana. Ou seja, com a certeza de que se diz a verdade, somente a verdade, nada mais do que a verdade. E que Deus me ajude! Foi o que fez, entre outros, Bill Clinton, quando negou ter tido sexo com a dragonarde Monica Lewinsky, porque o que eles fizeram no Salão Oval não estava na Bíblia.

* * * *

No Brasil não acreditamos ser possível existir sem mentir. Basta pensar no modo como fomos criados para entendermos a mentira como "boa educação" ou gentileza, pois como cumprir a norma de não discutir com os mais velhos sem enganar? Como não mentir quando a mulher amada chega do salão de beleza com o cabelo pintado de burro quando foge e pergunta: querido, o que é que você acha do meu novo penteado? Ou quando você confessa ao padre aquele pecado que você comete diariamente e dele se arrepende também cotidianamente, só para a ele voltar com uma volúpia apenas compreendida pelo velho e bom catolicismo romano? Como não mentir diante do seu professor, um Burro Doutor, que diz que sabe tudo, mas não conhece coisa nenhuma? Ou do amigo que escreve um livro de merda, mas acha que obrou coisa jamais lida? Ou para o netinho que questiona, intuindo Descartes: se existe presente, onde está Papai Noel?

Como não mentir se o governo mente todo o tempo, seja não realizando o que prometeu nas eleições, seja "blindando" os malfeitos inocentes dos seus aliados, seja dizendo que nada sabe ou tem a ver com o que ocorre debaixo dos seu nariz de Pinóquio?

* * * *

Numa sociedade que teve escravos, entende-se a malandragem de um Pedro Malasartes como um modo legítimo de burlar senhores cruéis. Mas não se pode viver democraticamente aceitando, como tem ocorrido no lulo-petismo, pessoas com o direito de mentir e roubar publicamente. Mentir para vender um tolete de merda como um passarinho raro ao coronelão que se pensa dono do mundo é coisa de "vingança social" à Pedro Malasartes.

No velho marxismo no qual eu fui formado, tratava-se de uma forma de "resistência" ao poder. Mas será que podemos chamar de "malfeitos" o terrorismo e o tráfico? Seria razoável aceitar a mentira como rotina da vida política nacional porque, afinal de contas, o "Estado (e a tal governabilidade com suas alianças) tem razões que a sociedade não conhece" ou, pior que isso, que o nosso partido tem planos que tanto o Estado quanto a sociedade podem ser dispensados de conhecer?

* * * *

No Brasil das éticas múltiplas (uma mentira e uma verdade para cada pessoa, situação, tempo e lugar), temos a cultura do segredo competindo ferozmente com a das inúmeras versões que, normalmente, só quem sabe a mais "verdadeira" é quem conhece alguém mais próximo do poder. Entre nós, a verdade tem gradações e lembranças. No antigo Brasil do "você sabe com quem está falando?", dizia-se: aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei! Hoje, nos vem à mente uma velha trova mineira: "Tu fingiste que me enganaste, eu fingi que te acreditei; foste tu que me enganaste ou fui eu quem te enganei?"

Com a palavra, os eleitos e os nomeados.
"

domingo, 23 de outubro de 2011

Bicicleta e integração

Ponto de vista - 23 out. 2011

Destaco a matéria assinada por Claudio de Souza, sob o título "Integração de pedais e trilhos longe do ideal", publicada hoje n'O GLOBO em continuação da série de reportagens "Vou de Bicicleta". Publicamos aqui, o texto da versão on-line. O grifo é nosso:

"A integração da bicicleta com outros meios de transporte de massa é um dos caminhos para melhorar o trânsito da cidade e reduzir a emissão de gases poluentes. Entretanto, a infraestrutura existente na região metropolitana do Rio ainda não estimula essa dobradinha sustentável. Esta sexta reportagem da série "Vou de Bicicleta", mostra que, de um total de 133 estações de trem e metrô, apenas 20, ou seja 15%, oferecem bicicletários.


Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), feita a pedido do Globo, em setembro, a falta de integração com outros meios de transporte é apontada por 5,6% dos cariocas como um dos principais motivos para não usar a bicicleta para ir ao trabalho ou percorrer distâncias maiores. Para o diretor da ONG Transporte Ativo, José Lobo, o Rio ainda está em uma fase inicial da integração.

- Em algumas cidades do norte da Europa, quase 50% dos acessos às estações de trem e metrô são feitos por bicicletas - afirmou.

Nos trens, das 98 estações, apenas nove, ou cerca de 9%, dispõem de bicicletários e o transporte de bicicletas nos vagões ainda não é permitido. A concessionária SuperVia afirma que, até o fim do ano, vai liberar o transporte de bicicletas nos trens aos domingos e feriados, além de inaugurar bicicletários em mais três estações.

O bombeiro civil, Marcos Brito, reclama, no entanto, da falta de segurança no bicicletário da estação ferroviária de Inhoaíba, na Zona Oeste. Ele parou de usar o serviço após ter sua bicicleta furtada.

- Minha mulher ainda deixa a bicicleta na estação para pegar o trem, mas a dela é velha. A minha, que é mais nova, não deixo. Prefiro usar o ônibus - diz o morador de Inhoaíba.

A SuperVia informou que todos os bicicletários estão fora das estações e que, como os espaços são públicos, "não exerce a guarda sobre as bicicletas deixadas".

Na rede do Metrô Rio, os bicicletários ficam dentro das estações, na área exclusiva a quem já passou pelas roletas. Das 35 estações, 11 (31%) têm bicicletários.

O diretor de Relações Institucionais do Metrô Rio, Joubert Flores, diz que a companhia planeja instalar áreas para bicicletas em mais 19 estações, aumentando a cobertura para 85% da rede da concessionária. O prazo para a conclusão dos novos bicicletários, no entanto, não foi informado.

- Só não vamos instalar em todas as estações já existentes porque em algumas não há espaço - afirma Flores, lembrando que, aos sábados, domingos e feriados, a companhia permite o transporte gratuito de bicicletas nos últimos vagões das composições.

O balconista Ulisses Paulo Geronima Maia, morador de Vilar dos Teles, usa diariamente o bicicletário da estação Pavuna, do metrô, de onde embarca para trabalhar em Copacabana.

- Uso a bicicleta até nos dias de chuva. Além de fazer exercício, economizo o dinheiro do ônibus que teria de pegar até a estação - afirmou ele, que pedala 30 minutos e fica mais uma hora no metrô até o trabalho.

O caseiro Edmilson Ferreira, morador de Coelho da Rocha, faz o mesmo para ir trabalhar. Ele pedala por 30 minutos até a Estação Pavuna e leva mais duas horas de metrô e ônibus da integração até a Barra.

- Antes mesmo de ter bicicletário, eu já vinha de bicicleta e deixava na rua para economizar.

Nas barcas, os bicicletários estão do lado de fora de quatro das cinco estações (Charitas, Araribóia, Paquetá e Cocotá). A Barcas SA informou que estuda instalar também na Praça XV. O transporte de bicicletas é permitido nas linhas que ligam a Praça XV a Cocotá (grátis), a Araribóia (R$ 4,70, nos dias úteis, e grátis, nos fins de semana) e a Paquetá (R$ 4,70, todos os dias). As dobráveis podem ser levadas de graça em qualquer trajeto."

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Hora da leitura

Ponto de vista - 10 out. 2011

Destaco o artigo de Roberto Zentgraf na coluna Dinheiro em Caixa, intitulado "Felizes coincidências...", publicado na página 24 da edição de hoje d'O GLOBO. O grifo é nosso:

"Preso no engarrafamento das 18h, enquanto voltava para casa, eis que sou brindado com o SMS (tempos modernos!) avisando-me da chegada de Maria Manuela, filha de dois grandes queridos, que já passearam por este espaço como personagens-exemplo para o tema Casais e Finanças. Fiquei contente, e não apenas por ver a evolução natural de uma união que se mostra bem-sucedida, mas também por um motivo bem mais cotidiano: às voltas sobre qual tema abordar, a pequena me lembrou que na próxima quarta-feira, dia 12, é o Dia da Criança, e você, leitor que me acompanha há mais tempo, sabe ser esse um dos meus assuntos favoritos! Feliz coincidência, a primeira!

Tendo nascido na família onde nasceu, é pouco provável que seus pais não invistam pesadamente em sua educação: decerto frequentará excelentes escolas, cursos de idiomas, faculdades e pós-graduações. Maria Luiza, Rodrigo e agora a Valentina, os pequenos do meu lado, também seguirão essa trajetória. Mas o que dizer de milhares de outras crianças que, infelizmente, não terão a mesma sorte financeira ou educacional que estas que citei?

A resposta não é trivial, pois não depende apenas de investimento financeiro público, mas também de toda uma estrutura de estímulos, incentivos, recompensas, valorização do professor e do aluno, somente para ficarmos nas questões mais aparentes. Obviamente, a base para tudo isso é a leitura, que nos torna curiosos, investigativos e capazes de formar nossas próprias verdades! E que, em outra feliz coincidência, tem o seu Dia Nacional também festejado em 12 de outubro (tudo isso sob a proteção de Nossa Senhora Aparecida)!

Mas engana-se quem acha que vou aproveitar a data para me limitar ao clássico "Dê livros de presente". Diante de tantas inovações tecnológicas para ler, sugiro: "Dê leitura de presente"! E é justamente aí que cito a terceira (e última) feliz coincidência do artigo: em fim de semana recente, fui a um evento chamado Hora da Leitura, programa desenvolvido pelo Instituto da Criança e que visa justamente a incentivar a leitura em larga escala nas periferias e comunidades de baixa renda (leia mais no link http://bit.ly/qDKn08).

Um de seus pilares, a Biblioteca do Bairro, tem como objetivo garantir o acesso aos livros (e, por conseguinte, à cultura) pelo público em geral, dando com isso suporte à Sala de Leitura, seu outro pilar. Na sala, grupos de até dez leitores reunidos por faixa etária têm rodas de leitura por um ano, mediados por estagiários contratados na própria comunidade.

No evento a que compareci, ouvi depoimentos entusiasmados de alunos que, por lerem mais, melhoraram seu desempenho escolar. E ouvi também depoimentos emocionados de mediadores, já interessados em, no futuro, seguir carreira acadêmica. Em um país com tantos jovens, foi um alento estar lá.

Para os adeptos do uso eficiente do capital, acho difícil encontrar proposta concorrente aos R$40 mensais necessários para custear três leitores. Claro que nada disso garante que os beneficiários ganhem a corrida de obstáculos até a faculdade. Mas que pelo menos um presente desses irá ajudá-los a não serem eliminados antes da largada, disso não tenho a menor dúvida. E você?

Um grande abraço e até a próxima semana!"