quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Corrupção absolvida

Ponto de vista - 31 ago. 2011

Destaco os primeiros parágrafos da coluna de Merval Pereira, sob o título "Falta de respeito", publicado na página 4 d'O GLOBO de hoje. O grifo é nosso:

"Quando o Supremo Tribunal Federal decidiu, com o voto decisivo do recém-nomeado ministro Luiz Fux, que a Lei da Ficha Limpa só valeria para a eleição de 2012, não podendo ser aplicada na de 2010, a senadora Marinor Brito, do PSOL, considerada eleita porque dois candidatos — Jader Barbalho e Paulo Rocha — foram enquadrados na nova lei, perguntou, indignada, temendo perder o mandato: "A Constituição diz que pode ser corrupto em 2010 e não pode em 2012?"

A mesma pergunta pode ser feita hoje, diante da decisão da Câmara de não cassar a deputada Jaqueline Roriz, flagrada em fita de vídeo recebendo dinheiro em 2006 do esquema do ex-governador José Roberto Arruda em Brasília.

O que os senhores deputados decidiram, em última instância, é que um político pode ter matado ou roubado antes de ser eleito que estará protegido pelo seu mandato se tiver conseguido esconder o crime até ter sido eleito.

Foi uma decisão de uma Câmara que não respeita o eleitor. E não se respeita. (...)
".

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Ação e discurso

Ponto de vista - 30 ago. 2011

Destaco apenas o último parágrafo da coluna de Luiz Garcia, sob o título "Algemas x abraços", publicado na página 7 d'O GLOBO de hoje. Diz tudo.

"Dilma está certa quando recusa o abraço na corrupção. Mas os governos mais corruptos têm o mesmo discurso. Ela mostrará que é bem diferente deles quando começar a algemá-los em vez de abraçá-los."

domingo, 28 de agosto de 2011

Por uma política com ética


Ponto de vista - 28 ago. 2011

O destaque de hoje é do artigo dominical de Frei Betto, intitulado "Corrupção na política", publicado na página 22 d'O DIA de hoje. O grifo é nosso.


"A política brasileira sempre se alimentou do dinheiro da corrupção. Isso não envolve todos os políticos: muitos são íntegros. Porém, as campanhas são caras, o candidato não dispõe de recursos ou evita reduzir sua poupança, e os interesses privados no investimento público são vorazes.

Arma-se, assim, a maracutaia. O candidato promete, por baixo dos panos, facilitar negócios privados junto à administração pública. Como por encanto, aparecem os recursos de campanha. Eleito, aprova concorrências sem licitações, nomeia indicados pela iniciativa privada, dá sinal verde a projetos superfaturados e embolsa o seu quinhão, ou melhor, o milhão.

Conhecemos a qualidade dos serviços públicos. Basta recorrer ao SUS ou confiar os filhos à escola pública. E ver ruas e estradas esburacadas. A impressão que se tem é que o dinheiro público não é de ninguém. É de quem meter a mão primeiro. E são raros os governantes que, como a presidenta Dilma, vão atrás dos ladrões.

Acredito na ética da política. Ou seja, criar instituições e mecanismos que inibam quem se sente tentado a corromper ou ser corrompido. As instituições devem ser fortes, as investigações, rigorosas, e as punições, severas. A impunidade faz o bandido. E, no caso de políticos, ela se soma à imunidade.

As escolas deveriam levar casos de corrupção às salas de aula. Incutir nos alunos vergonha de fazer uso privado dos bens coletivos. Já que o conceito de pecado deixou de pautar a moral social, urge cultivar a ética como normatizadora do comportamento. Desenvolver em crianças e jovens a autoestima de ser honesto e de preservar o patrimônio público".

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

De confiança e confiáveis


Ponto de vista - 24 ago. 2011

O destaque de hoje é uma reportagem do jornalista Marcos Galvão, intitulada "Campanha pede adoção da Lei da Ficha Limpa em Mesquita", publicado na página 2 d'O DIA do último Domingo (21 de agosto de 2011).

Movimentos da sociedade civil estão se mobilizando na coleta de assinaturas para a apresentação de um projeto de lei de iniciativa popular que visa estender, no município, a Lei da Ficha Limpa também para cargos nomeados - os chamados cargos de confiança; afinal estes últimos também lidam com a coisa pública e precisam ser pessoas confiáveis. A proposta, conta o artigo, é impedir a nomeação para os cargos públicos daqueles que já foram condenados pela justiça.

Tomara que ideia pegue e sirva de base para a mobilização em outros municípios, a começar pelos vizinhos. O grifo é nosso:



"Moradores de Mesquita iniciaram a luta pela moralização na administração pública. Um abaixo-assinado começou a ser coletado na cidade com o objetivo de implantar a Lei da Ficha Limpa Municipal. Se o projeto for aprovado pela Câmara e sancionado pelo prefeito Artur Messias, Mesquita será a primeira cidade do estado a dispor da lei.

A iniciativa é uma proposta de entenda A Lei Orgânica do município e estabelece critérios para a nomeação de secretários, diretores e cargos comissionados para a administração direta, tanto da Prefeitura quanto da Câmara de Vereadores. O projeto inclui a administração indireta, as autarquias, empresas públicas de economia mista e fundações públicas de Mesquita.

De acordo com a Constituição Federal, são necessárias as assinaturas de 5% do eleitorado do município. "São necessárias 6.500 assinaturas", explica Ewerson Cláudio, do PSOL, um dos organizadores do movimento.

Também apoiam a iniciativa o Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe), o Movimento Fé e Política, ligado à Igreja Católica, o Sindsprev (Sindicato dos Previdenciários) e a Ong Com Causa. “A meta é atingir-mos as assinaturas necessárias até setembro, quando pretendemos apresentá-lo à Câmara, numa grande festa popular”, diz Ewerson.

Numa amostragem inicial, foram coletadas 500 assinaturas, em apenas dois fins de semana. "A receptividade da população tem sido muito boa. Vamos agora levar a campanha às praças, escolas, igrejas e associações de bairro", explica Edmílson Ribeiro, diretor do Sepe de Mesquita.

O prefeito de Mesquita, Artur Messias (PT), gostou da iniciativa e disse que pretende sancionar a lei, se o projeto for aprovado pela Câmara. “O mais importante é que será uma lei de iniciativa popular, algo inédito no município”; diz Artur Messias.

Presidente da Câmara Municipal, André Taffarel (PT), também disse que é favorável à iniciativa. Ele acrescenta que já tramita na Câmara projeto de lei de sua autoria. “Assim que receber o projeto, vou encaminhá-lo à Procuradoria da Câmara”: disse
".

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O mês sagrado

Ponto de vista - 23 ago. 2011

O destaque do blog hoje é o artigo de Cristina Ruiz Kellersmann, intitulado "Ramadã ", na coluna "Pelo Mundo", publicado na página 2 do "Segundo Caderno" d'O GLOBO. Trechos, na verdade.

A jornalista, que escreve sobre a vida cultural de Berlim - a capital alemã - nos dá uma aula sobre o mês sagrado dos muçulmanos e seu cotidiano. O grifo é nosso:



"[...], a religião islâmica se destaca com uma fatia de quase 10% da população local [de Berlim]. A presença muçulmana se torna mais visível na cidade no período do Ramadã. Em bairros com alta densidade de muçulmanos (Kreuzberg Wedding e Neukölln), as padarias anunciam o ramazan pidesi (o pão do Ramadã). Os supermercados turcos têm promoções especiais e distribuem calendários festivos com os horários do nascer e do pôr-do-sol. Tarde da noite, ainda se veem as numerosas famílias circulando, o que não é comum em outras épocas, indo e voltando da casa de parentes.
[...]
Estamos na última semana do Ramadã, a festa mais importante do Islã. Comemorada no nono mês do calendário islâmico, ela tem como referência o calendário lunar e por isso acontece em data diferente a cada ano.

O jejum é o componente mais importante do Ramadã. Os muçulmanos não podem ter sexo, fumar, comer ou beber nada, nem água, enquanto houver luz do sol. Acredita-se que através do exercício do autocontrole, possa se desenvolver a gratidão, o aprendizado de valorizar mais aquilo que se possui, a compaixão pelos pobres e ainda o fortalecimento de um vínculo com Deus (Alá). É um momento de reflexão e uma época para aplicar os ensinamentos do Alcorão.

O ritual começa cedo, antes do dia clarear. As mães de família têm um dia a dia bastante movimentado no Ramadã. Com as noites mais curtas nesta época do ano, elas mal têm tempo para dormir, pois é na madrugada que se prepara a primeira refeição do dia, sohour. Depois do nascer do sol, quando todos saem de casa, é a hora do silêncio, um momento de descanso, antes de começar os preparativos do atar, a próxima refeição. A temporada do Ramadã se encerra com uma celebração de três dias. É o equivalente ao Natal dos cristãos. As crianças ganham brinquedos, roupas e guloseimas.
[...]
Há também muçulmanos que só celebram o Ramadã quando estão em seu país. É o caso de Sedai Sardan, que mudou-se para a Alemanha em 1974, aos 14 anos, e hoje é dono do clube de jazz A-Trane. "Em Berlim, não há tradição, o Ramadã diluiu-se, perdeu o sentido. Celebrar é estar com amigos e familiares, ajudar um ao outro e aqueles que necessitam. É preciso recuperar a beleza do Ramadã, e não praticá-lo como obrigação. Na minha infância, o jeito de celebrar era bem diferente. Não havia Internet e nem celular. O Ramadã era a razão para estarmos juntos", contou Sedai relembrando os tempos de garoto.

Em Berlim há muitos restaurantes e lanchonetes de comida turca. Estes estabelecimentos não fecham por causa do Ramadã. Os funcionários estão acostumados a estarem ali, cozinhando, servindo e sentindo o cheiro da comida sem poder comer. Ninguém para de trabalhar ou deixa de ir à escola. Mas não há dúvida de que se trata de um período especial. Todo dia é dia de uma refeição farta e coletiva depois que o sol se esconde. E mesmo sem ser devoto e ter jejuado o dia inteiro, é possível participar de uma quebra de jejum.

O mês do Ramadã é uma época de encontros e abertura de diálogos. A agenda cultural da cidade oferece concertos, filmes e discussões em torno da cultura muçulmana. Na política, acontecem eventos reunindo representantes da comunidade e chefes políticos. As noites do Ramadã são definitivamente motivo para celebrar. Começam com a quebra do jejum e sempre terminam em festa!
".

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Pagando para não usar


Ponto de vista - 22 ago. 2011

Destaco da leitura diária do jornal, a matéria assinada por Carlos Alberto Teixeira, intitulada "Para que serve isso mesmo?", na página 19 d'O GLOBO. O jornalista relata - citando vários exemplos de consumismo - que a grande maioria dos usuários é seduzida pelas novidades tecnólogicas com suas mil e uma utilidades (e pelas campanhas publicitárias); mas que, no final, acaba pagando por aquilo que na verdade não consome - porque não consegue aprender ou, na verdade, não encontra necessidade. O grifo é nosso:


"A esmagadora maioria dos aparelhos informáticos e eletrônicos é vergonhosamente subutilizada e os exemplos estão por toda parte. Basta procurar no seu círculo mais próximo de amigos quanta gente possui celulares e smartphones às vezes de último tipo, caros e cheios de funcionalidades, mas que usa o aparelho para falar e, no máximo, enviar mensagens de texto.

Rosane Garcia, 37 anos, morando na Suécia e trabalhando como pesquisadora em economia imobiliária no Instituto Real de Tecnologia, é um desses exemplos.

— Comprei meu iPhone 3G5 em abril de 2010 e tenho um plano de assinatura por 24 meses. Por isso, mesmo se eu quisesse me livrar dele, teria que continuar pagando até o restante do plano. Com toda certeza, meu próximo aparelho será algo bem básico, pois sei que não utilizo todas as funções existentes neste celular — conta ela. — A única função futura que vejo para meu iPhone é utiliza-lo mesmo como "air mouse" para controlar o meu servidor de mídia, montado em um Mac Mini.

Quem alimenta o fenômeno é a própria indústria, que, com maciças campanhas publicitárias nas várias mídias, induz o consumidor a comprar coisas de que ele, na verdade, não precisa — badulaques cheios de perfumarias e funções adicionais, muitas vezes supérfluas, de que ele jamais chegará nem perto.

As grandes empresas de tecnologia, mobilidade e telecomunicações estão aos poucos se tornando donas de nossas emoções e, consequentemente, de nossos desejos — diz Evaristo Santiago, aposentado pelo INT (Instituto Nacional de Tecnologia) e ex-gerente de TI da Comissão Nacional de Energia Nuclear. — Basta ver o caso da Apple. Assim que ela lança um iPhone novo, quase todos os donos do modelo antigo já ficam com sede de consumo, mesmo não tendo aprendido a usar nem metade dos recursos do aparelho anterior.


Serviços também subutilizados

O setor de serviços também tem representantes da casta dos chamados "underusers". Clientes de TV por assinatura, se não forem os campeões na categoria, são fortes candidatos.

— Meu genro instalou anos atrás para mim uma TV a cabo com centenas de canais com filmes e documentários. Tem até televisão do Japão e da Alemanha, e uma penca de outros canais só de canções e música de todo tipo — desabafa Célia Vieira da Cruz, 89 anos. — Achei fofa a atitude dele, mas nem novela eu acompanho. Sou muito religiosa e assisto um único canal: o Rede Vida.

É comum também encontrar usuários que pilotam computadores de último tipo — desktops ou notebooks — equipadíssimos com os melhores e mais caros periféricos, e com conectividade em banda larga de dezenas de megabits por segundo, mas que usam a potência da máquina para tarefas simples.

Marlene Nelson da Silva, dona de casa de 72 anos, é outra "underuser" doméstica típica na categoria de produtos de informática.

— Tenho em casa um computador desses de mesa cheio de aparelhos pendurados nele. Tem um monitor de alta resolução. CPU com processador veloz, memória aos borbotões, roteador sem fio e um disco rígido gigantesco. Mas só uso o aparelho para digitar textos esporadicamente e ler e enviar e-mails. Pen drive? Já ganhei um. Mas fica parado na gaveta — confessa.


Excessos até na cozinha

A síndrome da subutilização não se restringe ao escritório e à sala de estar, local que muitas vezes abriga um home theater estalando de novo, cheio de capacidades avançadas, mas que o dono só usa para as funções básicas de tocar CD e ouvir rádio FM. O mal se alastra para as outras dependências do lar, como a cozinha, onde não é raro ver um forno de micro-ondas com mil funcionalidades, mas usado apenas para esquentar leite e fazer pipoca. Ou um daqueles multiprocessadores, capazes de fazer até suco de pedra, mas que só se usa para picar cebola.

Ter algumas economias paradas é um ponto que ajuda a cometer exageros na compra de itens tecnológicos. A socióloga Fátima Costa, 43 anos, enveredou pelas bandas da fotografia, exagerando um tanto na sofisticação de suas compras.

— Além de iPad e iPhone, comprei um ótimo equipamento fotográfico de uns R$30 mil, e o pus até no seguro. Participo de um grupo de fotografia, o Photoconversa, que funciona na empresa onde trabalho. — conta Fátima. — Mas tenho plena consciência de que uso pouquíssimos recursos de minha câmera Canon 5D Mark II, com objetiva 24-105mmL.

Luiz Ricardo Poell, médico do trabalho, é outro que tem vários relatos de subutilização de dispositivos.

— Sou o perfeito mau usuário de vários apetrechos eletroeletrõnicos: celular, micro-ondas, TV de LED novinha e o super-rádio do meu carro — diz Poell. — Mas o campeão é o meu relógio Citizen que tenho desde 1997 e que nunca enguiçou. O bichão oferece dezenas de funções que até hoje não consegui acessar, mas também nunca precisei de nenhuma delas. Sempre que preciso mexer no horário de verão, apelo para um experiente relojoeiro que insiste em tentar me ensinar a manejar aquela "botãozada" toda, só para atrasar ou adiantar os ponteiros em uma hora. Ele deve me achar um quadrúpede de relógio".


* * * * *

Você é um desses? Que exemplos, seu ou de pessoa próxima, você pode nos contar?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Agentes de leitura

Ponto de vista - 19 ago. 2011

Destaco da leitura diária do jornal, a reportagem da coluna Por dentro do Globo, intitulada "Batalhão pela leitura", na página 2 d'O GLOBO. A mesma relata sobre um projeto do governo federal que, para ser excelente, precisa sair do papel de verdade. O grifo é nosso:

"Inspirado nos agentes de saúde da família, o Ministério da Cultura pretende lançar um batalhão de mais de 3 mil "agentes de leitura" pelo país. O programa, também intitulado Agentes de Leitura, começou a ser implementado em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, e o trabalho dos jovens agentes é percorrer os bairros pobres da periferia, com muitos livros a tiracolo, apresentando o prazer da leitura para crianças e adultos dentro de suas próprias casas.

Durante três dias, os repórteres Gilberto Scofield Jr e Márcia Abos e os fotógrafos Michel Filho e Eliária Andrade acompanharam de perto o trabalho destes jovens, observando as atividades de formação, suas visitas às casas de famílias e a atuação em cursos de alfabetização de adultos. A reportagem ganhou a capa do Prosa & Verso deste sábado.

— Nunca tinha visto algo assim. Numa das atividades de formação, o escritor Ilan Brenman mostrou aos jovens agentes como você pode despertar o interesse de uma pessoa pelo livro. A coisa mais legal que ele disse é que a classe social de seus ouvintes não determina a escolha dos livros. Não há discriminação, ou seja, não se conta uma história mais "fácil" porque o ouvinte é da periferia — diz Márcia, confessando que jamais esquecerá a alegria dos agentes que ganharam livros num sorteio. — Era como se tivessem ganhado na loteria.

A reportagem conta as histórias de superação dos agentes— que normalmente trabalham em suas próprias comunidades e enfrentam problemas comuns a elas (num dos locais, a equipe do GLOBO foi abordada por um "olheiro" do tráfico de drogas que queria saber o que estavam fazendo lá) — e das pessoas que tiveram a vida modificada pelo simples ato de ler um livro. Um prazer que ainda está distante de ser uma realidade acessível para todos os brasileiros.

— A proposta é interessante e inspiradora. Mas para que dê certo é preciso que ela tenha continuidade e que estes novos leitores tenham acesso a livros — observa Scofield".

* * * * *

Eu disse, na apresentação, que o projeto precisa sair do papel de verdade porque em junho de 2010 foi lançado um edital de seleção para tais agentes de leitura em Nilópolis (RJ). Concluída as etapas da seleção, os aprovados não foram convocados. Agora a Prefeitura acaba de lançar um novo edital (19 ago. 2011) para uma nova seleção porque, tendo feito contatos (meses depois), verificou que quatro candidatos aprovados teriam desistido; e também porque precisaria de mais doze para formar um banco de espera.

A demora na realização do projeto, explica o edital, teria sido pelo atraso na liberação do recurso pelo Ministério da Cultura.
Com a nova seleção, ainda segundo o edital, o início das atividades de formação dos Agentes de Leitura está marcado para 09 de janeiro de 2012. Isso mesmo: 2012! Por causa de quatro agentes que estão faltando, os outros vinte que já estão aptos (do edital de 2010) terão que esperar 2012 para começar! Mas se forem vencidos pelo cansaço, já haverá doze no banco de espera para os substituir...

É verdade, então, que o projeto do Ministério da Cultura em parcerias com estados e municípios está atrasado nacionalmente.

O que você acha: Cultura pode esperar?
Até quando?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A saudável faxina


Ponto de vista - 17 ago. 2011

Persistindo no tema do momento, a "faxina ética" da presidenta Dilma, do caderno de Opinião d'O GLOBO de hoje, na página 6, destaco trechos do artigo de Elio Gaspari, intitulado "Simon propôs a patrulha da Viúva"; disponível na íntegra no blog do jornalista Ricardo Noblat. O grifo é nosso:

"Há muito tempo não acontecia coisa tão boa no Congresso. O senador Pedro Simon (PMDB-RS) propôs a criação de uma frente interpartidária de apoio a Dilma Rousseff para conter a chantagem que se arma contra o governo por conta de sua disposição de combater a ladroeira.

(...)

O fisiologismo não vai acabar, até porque sua principal fonte alimentadora é o governo. Também não vão acabar as maracutaias. O que Pedro Simon oferece é uma coligação destinada a impedir que o Congresso seja transformado num instrumento de chantagem.

A banda podre da base do governo quer se rebelar em defesa da impunidade, mas não pretende botar a cara na vitrine. Planejam emboscar o governo em procedimentos rotineiros, votações surpreendentes ou ainda com alianças oportunistas.

(...) A proposta do senador, se resultar em ações práticas, permitirá a exposição da hipocrisia.

Basta mostrar onde está o alçapão, pois sempre haverá deputados ou senadores dispostos a colocar cascas de banana no caminho das lideranças parlamentares ineptas do governo.

Para combatê-los, a luz do sol será o melhor desinfetante. Mostrará a infiltração da turma dos convênios e das licitações fraudulentas na bancada do governo, inclusive na do PT. De quebra, inibirá a adesão do PSDB e do DEM a maiorias oportunistas. (...)"

* * * * *

Destaco, também, quase a totalidade do artigo da colunista Miriam Leitão na página 22 d'O GLOBO, intitulado "Verdadeira ameaça"; disponivel na íntegra no blog da jornalista. Ela começa o texto relatando como esse é mesmo o assunto do momento nas ruas; e depois discorda do senador petista José Pimentel que, conforme transcrevemos ontem aqui, opinou que esse combate anticorrupção pode levar o Brasil a uma nova ditadura militar. O grifo é nosso:Link

"Na mesma tarde, um estudante me perguntou, num debate, o que eu achava da faxina da corrupção iniciada pela presidente Dilma, e um motorista de táxi quis saber a que instituição deveria recorrer para iniciar um movimento contra o roubo do dinheiro público. É o assunto do momento. É totalmente torta a ideia de que o combate à corrupção nos levará de volta à ditadura.

Disse ao estudante que se a presidente conseguir que o País pare de piorar já terá dado um grande passo. Avisei ao motorista que a indignação dele já era um bom começo. É urgente estabelecer parâmetros que impeçam a leniência com o desvio do dinheiro do contribuinte. Nos últimos dias, o debate político trouxe à tona várias lendas em torno do assunto. A pior delas é o argumento usado pelo senador José Pimentel, do PT, de que o movimento de combate à corrupção fará o País repetir os fatos que, nos anos 60, fizeram a defesa da ética ser usada como pretexto para o golpe militar.

Se Jânio Quadros renunciou, aumentando a instabilidade política, a culpa não é do eleitor que viu sua vassourinha como promessa de limpeza. A culpa é dele mesmo. Se o discurso udenista foi usado pelos militares, a culpa não é da ideia da ética, mas dos golpistas que propuseram o golpe de Estado. Os militares e seus aliados estavam decididos a depor o governo civil. Tudo o que disseram na ocasião - da suposta república sindicalista de Jango à corrupção de alguns políticos - foi pretexto para ação deliberada de golpear as instituições democráticas.

Esta intenção não está presente hoje nas Forças Armadas, então que fique tranquilo o senador José Pimentel. Não há "anos de chumbo" sendo contratados pelos que querem que o Brasil tenha parâmetros civilizados de administração pública, transparência e controle no uso do dinheiro dos contribuintes. Não há nada por trás do desejo legítimo do eleitor de que haja novos hábitos políticos no Brasil. Não há conspirações nos quartéis. Não há interesses ocultos. O que o país quer é simples.

A verdadeira ameaça é deixar tudo como está. A leniência com a corrupção mina a democracia. Dará ao eleitor a sensação de que o roubo é da natureza do regime democrático e, assim, preparará o País para o aparecimento de algum salvador da pátria.

A presidente não será a salvadora da pátria; nem ela se apresenta assim. Dilma apenas tem tomado decisões sensatas diante de indícios fortes, gravações inequívocas e flagrantes. Analisa os fatos e afasta autoridades dos seus postos. O princípio de que todos são inocentes até prova em contrário não pode ser usado contra a sociedade.

Outra lenda urbana é que os partidos que compõem a base vão abandonar o governo caso a presidente vá em frente no esforço de construir novos parâmetros para a administração pública. É da natureza desses partidos viver em torno dos governos. Alguns nem sabem ser oposição. Podem fazer um ou outro evento de rebelião, como efeito de demonstração, mas a presidente não deve se deixar chantagear: nem com a ameaça de dissolução de sua base parlamentar, nem com as vozes que tocam nas feridas recentes e ameaçam com novos "anos de chumbo".

Nada tem a presidente a perder. Uma atuação firme do governo vai inibir a sem cerimônia com que os corruptos têm usado o poder, os órgãos públicos e o dinheiro coletivo nos últimos anos. O fim da sensação de impunidade já será o dique que impedirá que o País piore. E a piora é inconcebível. É preciso começar a instalação de novos parâmetros, a correção de desvios, o desenvolvimento de ferramentas de controle, o aumento da transparência, a punição dos desvios. Como todo processo, será lento, mas não é impossível sonhar com instituições mais decentes no Brasil.

(...)

A faxina é saudável, tinha de ser iniciada. Não é o renascimento do golpismo de 64, não vai resolver todos os problemas da noite para o dia. Ela é necessária porque aperfeiçoa a democracia e fortalece os laços dos eleitores com seus representantes. Que nenhum fantasma do passado, ou do presente, paralise o processo de saneamento".

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Para ler mais sobre a "faxina ética", clique aqui, aqui e aqui.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O apoio necessário à "faxina ética"?

Ponto de vista - 16 ago. 2011

A coluna de Merval Pereira, hoje, na página 4 d'O GLOBO, com artigo intitulado "Apoio necessário", desdobrou o assunto que tem sido o tema dos últimos aqui no blog. Publico apenas a parte inicial. O grifo é nosso:

"O movimento comandado pelo senador Pedro Simon, de apoio suprapartidário ao combate à corrupção no governo que a presidente Dilma vem realizando, é sintoma de uma situação política controversa de difícil solução. É inegável que a presidente tem encontrado na opinião pública uma receptividade grande a seus gestos, que parecem levar o governo para um confronto com a política fisiológica que dá sustentação à coalizão governamental.

Nem mesmo o fato de que ela foi beneficiária desse mesmo esquema para se eleger presidente da República parece afetar a credibilidade de sua ação.

Como se a população estivesse disposta a relevar seu conhecimento anterior da situação, e até mesmo sua convivência com esse mesmo esquema corrupto que ora parece rejeitar, desde que ela se disponha a acabar com ele.

Parece ser de entendimento público que a chefe da Casa Civil e depois candidata a presidente não poderia impedir que o ex-presidente Lula tratasse a pão de ló os mesmos políticos, mesmo que tenha sido eleita graças em boa medida à ação deles.

Ao mesmo tempo, e devido à percepção de que ela vem se comportando como uma traidora, a própria base aliada a vem pressionando para que retorne ao leito natural da política pragmática implementada por seu tutor, o ex-presidente Lula.

Foi por essa razão, aliás, que surgiu o movimento de apoio à presidente, para respaldá-la contra o que estaria se caracterizando como uma rebelião interna.

Mas esse apoio político, rejeitado pelo núcleo principal do PMDB e do PT, pode não ser de grande ajuda.

Na sessão de ontem, houve demonstrações das lideranças daqueles dois partidos de que o apoio ao combate à corrupção não é a prioridade deles, ao contrário do que parece ser para a sociedade.

Não é nada paradoxal que a presidente Dilma se fortaleça nas pesquisas de opinião com essa faxina ética, mas se enfraqueça dentro de sua própria base aliada.

Só demonstra a distância cada vez maior entre a sociedade e a classe política, diferença bem captada pelo marqueteiro João Santana, que parece ser o cérebro por trás dessa faxina ministerial.

Como não é uma política capaz de transformar em retórica de palanque essa força que a sociedade lhe dá, a presidente Dilma parece presa a uma armadilha que não tem saída fácil.(...)"

* * * * *

Destaco, também, sobre o mesmo tema, a reportagem da página 5 do mesmo O GLOBO, assinada por Maria Lima e Gerson Camaroti, sobre a repercussão da criação no Senado da tal frente parlamentar de apoio à "faxina ética" da presidenta Dilma. Incrível é o cinismo do líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB): "Todos no Senado são contra a corrupção". O grifo é nosso:

"BRASÍLIA. Os líderes da base aliada e, principalmente, senadores petistas receberam com ironias e reserva a frente suprapartidária contra corrupção e impunidade, lançada em apoio à faxina da presidente Dilma Rousseff. A oposição também desacreditou o movimento. O líder do PSDB, senador Álvaro Dias (PR), acusou Dilma de estar fazendo retórica ao defender a limpeza ética, mas impedir a instalação de uma CPI do Dnit.

O líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR), agradeceu o apoio dos senadores independentes, mas ressaltou ser desnecessário formar uma frente para combater a corrupção.

- Acho que não é preciso formar um grupo. Todos no Senado são contra a corrupção. Só discordo desse movimento porque muito desses senadores querem a CPI. Esse não é o melhor instrumento para combater a corrupção - disse Jucá.

Os ataques mais duros não só à frente, mas à faxina feita em alguns ministérios, vieram do ex-ministro da Previdência, senador José Pimentel (PT-CE). Ele foi à tribuna criticar o movimento e fazer um discurso em defesa do ex-presidente Lula. Chegou até a alertar que esse movimento pode ter desfecho parecido com movimento da faxina anticorrupção da década de 50, que bombardeou o então presidente Getúlio Vargas e depois atingiu o presidente Juscelino Kubitschek com a desmoralização da classe política.

- A história se repete como farsa - disse Pimentel, lembrando que, na década de 50, diante de uma enxurrada de denúncias de corrupção no governo, o jornalista Carlos Lacerda comandou um movimento que "deu no que deu".

- A gente nunca pode esquecer que nos anos de chumbo esmagaram os políticos e as instituições. O presidente Getúlio Vargas teve que dar um tiro no peito.

O senador Pedro Simon rebateu dizendo que o episódio não tem parâmetro de comparação com a situação de hoje, já que, naquela época, não existia a imprensa que o país tem hoje:

- Não tem nenhum Carlos Lacerda nem ninguém querendo dar nenhum tipo de golpe.

- Aqueles que ontem patrocinaram a campanha da vassoura continuam presentes por aí e podem nos jogar de novo nos anos de chumbo - insistiu Pimentel.

Líder do PT, o senador Humberto Costa (PE) também pregou cautela:

- O debate faz parte da essência do parlamento. Agora, não se trata de usar esse grupo para substituir a base aliada.

Os próprios integrantes da frente reconhecem que o movimento é insuficiente para dar sustentação ao governo.

- Não dá para desmontar um sistema mantido até recentemente. O "presidencialismo de coalisão" vem se deteriorando. Isso fica claro com o aparelhamento político dos ministérios. Os partidos se apossam de órgãos, estatais e pastas. Esse modelo chegou ao seu esgotamento. Não sou ingênuo de dizer que temos condições de mudar isso com esse grupo. Mas temos que refletir sobre qual modelito a presidente Dilma vai vestir a partir de agora - disse o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES). (...)".

* * * * *

Para ler mais sobre a "faxina ética", clique aqui e aqui.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O estilo da presidenta e a "faxina ética"

Ponto de vista - 15 ago. 2011


Destaco, hoje, trechos da coluna de Ricardo Noblat na página 2 d'O GLOBO, intitulada "Volta, Lula!"; também publicada no blog do jornalista. No contexto geral do artigo, o colunista aborda sobre o estilo autoritário e ríspido da presidenta, até mesmo com ministros mais próximos. O título se deve ao desejo inconfessado de muitos desses e também dos partidos da base aliada (aliada?), acostumados com o velho Luiz Inácio. O grifo é nosso:

"(...) O estilo Dilma tensiona o governo e assusta os políticos em geral. A maioria deles está convencida de que ela enveredou por um caminho perigoso. Qual?

O de posar de guardiã do interesse público em oposição a uma classe política que só pretende dilapidá-lo. O governo é bom. O Congresso está repleto de vilões.

De mãos postas, o ex-ministro José Dirceu nega a autoria de uma previsão que circulou em Brasília na semana passada: “Se Dilma continuar assim, correrá o risco de não concluir o mandato”.

Mas a frase que ele não disse está na boca de políticos de partidos que apoiam o governo. Eles só não têm coragem de repeti-la em voz alta.

Estão acuados por uma presidente que não disfarça seu desprezo por eles, que os mantém à distância, que resiste a atender aos seus pedidos por cargos e dinheiro para pequenas obras, e que, por último, parece gostar de se exibir fantasiada de “faxineira ética”.

É verdade que a faxina estancou às portas dos redutos do PMDB...

Os partidos que apoiam o governo não querem briga com Dilma. Querem o que tiveram em todos os governos: fatias do poder, respeito e afagos.

Dispensam beijo na boca.

Se não forem capazes de se entender com Dilma mesmo assim não a abandonarão. Não têm para onde ir. (...)"

* * * * *

Destaco, também, trechos do artigo "Princípios republicanos", de Denis Lerrer Rosenfield, professor de Filosofia da UFRGS, publicado na página 6 d'O GLOBO, e também n'O Estado de S.Paulo Online; sobre o mesmo assunto. O grifo é nosso:

"Já está mais do que passada a hora de o Brasil se organizar segundo princípios e valores republicanos, que se situam acima das disputas partidárias. Uma sociedade democrática não pode estar constantemente submetida a disputas entre partidos que chegam a atingir esses mesmos princípios e valores.

Talvez se possa dizer que o País atravessa um momento particularmente propício à afirmação desses princípios. Dentre eles, gostaria de ressaltar a ética na política, pois a moralização da vida pública é uma condição das democracias desenvolvidas. Nelas os cidadãos percebem a coisa pública como deles, e não como a coisa privada de alguns.

(...)

A presidente Dilma Rousseff partiu, com decisão, para uma faxina ética em diferentes ministérios, dentre os quais se destacam, por enquanto, Transportes, Agricultura e Turismo. (...) Sem nenhuma dúvida, trata-se de uma grande novidade, sobretudo se compararmos o atual governo com o anterior, pois neste infratores eram tratados com afago.

Nesse sentido, pode-se dizer que ela está conduzindo uma política republicana, situada acima dos partidos políticos. Observe-se que a faxina está atingindo os mais diferentes partidos políticos, tendo tudo começado com o PR, porém já alcançando o PMDB, o PTB e o próprio PT. (...)

O "argumento" de que a presidente estaria pondo em perigo a "governabilidade" não deixa de ser um "pseudoargumento", pois ele expressa o descontentamento dos que foram atingidos ou dos que temem ser atingidos em futuro próximo. Ou seja, o dito argumento da governabilidade está sendo utilizado para a mera conservação do status quo, herdado do governo anterior.

A questão é bem outra. Trata-se de uma tentativa de instaurar uma nova forma de governabilidade, que possa seguir precisamente princípios republicanos, como o de que os recursos dos contribuintes não serão dilapidados ou desviados para os bolsos de alguns. O caminho que se está abrindo, e que será certamente espinhoso, é o de que a Nação possa trilhar o percurso do amadurecimento da democracia.

Corrupção e malversação de recursos públicos são extremamente nocivas para a democracia, pois degradam valores e corroem instituições. Se os valores morais não são seguidos pelos dirigentes, o exemplo dado à Nação é o de que ninguém a eles precisa obedecer. Se as instituições não são respeitadas, a própria organização social, institucional e política se torna precária. O recado seria, então, o seguinte: as regras nada valem.

No entanto, tal transformação política e institucional não pode ser levada a cabo por simples vontade presidencial se ela não vier acompanhada pelo apoio da opinião pública e, também, das oposições.

(...)

O jogo agora é outro: separar os interesses partidários dos republicanos, obrigando todos os atores, por convicção ou não, a atuar segundo uma noção suprapartidária de vida pública. O desafio é certamente enorme, mas não será enfrentado se não for tentado. A consolidação de nossas instituições democráticas disso depende".

É verdade que a faxina estancou às portas dos redutos do PMDB...

Os partidos que apoiam o governo não querem briga com Dilma. Querem o que tiveram em todos os governos: fatias do poder, respeito e afagos.

Dispensam beijo na boca.

Se não forem capazes de se entender com Dilma mesmo assim não a abandonarão. Não têm para onde ir. (...)"

* * * * *

Destaco, também, trechos do artigo "Princípios republicanos", de Denis Lerrer Rosenfield, professor de Filosofia da UFRGS, publicado na página 6 d'O GLOBO, e também n'O Estado de S.Paulo Online; sobre o mesmo assunto. O grifo é nosso:

"Já está mais do que passada a hora de o Brasil se organizar segundo princípios e valores republicanos, que se situam acima das disputas partidárias. Uma sociedade democrática não pode estar constantemente submetida a disputas entre partidos que chegam a atingir esses mesmos princípios e valores.

Talvez se possa dizer que o País atravessa um momento particularmente propício à afirmação desses princípios. Dentre eles, gostaria de ressaltar a ética na política, pois a moralização da vida pública é uma condição das democracias desenvolvidas. Nelas os cidadãos percebem a coisa pública como deles, e não como a coisa privada de alguns.

(...)

A presidente Dilma Rousseff partiu, com decisão, para uma faxina ética em diferentes ministérios, dentre os quais se destacam, por enquanto, Transportes, Agricultura e Turismo. (...) Sem nenhuma dúvida, trata-se de uma grande novidade, sobretudo se compararmos o atual governo com o anterior, pois neste infratores eram tratados com afago.

Nesse sentido, pode-se dizer que ela está conduzindo uma política republicana, situada acima dos partidos políticos. Observe-se que a faxina está atingindo os mais diferentes partidos políticos, tendo tudo começado com o PR, porém já alcançando o PMDB, o PTB e o próprio PT. (...)

O "argumento" de que a presidente estaria pondo em perigo a "governabilidade" não deixa de ser um "pseudoargumento", pois ele expressa o descontentamento dos que foram atingidos ou dos que temem ser atingidos em futuro próximo. Ou seja, o dito argumento da governabilidade está sendo utilizado para a mera conservação do status quo, herdado do governo anterior.

A questão é bem outra. Trata-se de uma tentativa de instaurar uma nova forma de governabilidade, que possa seguir precisamente princípios republicanos, como o de que os recursos dos contribuintes não serão dilapidados ou desviados para os bolsos de alguns. O caminho que se está abrindo, e que será certamente espinhoso, é o de que a Nação possa trilhar o percurso do amadurecimento da democracia.

Corrupção e malversação de recursos públicos são extremamente nocivas para a democracia, pois degradam valores e corroem instituições. Se os valores morais não são seguidos pelos dirigentes, o exemplo dado à Nação é o de que ninguém a eles precisa obedecer. Se as instituições não são respeitadas, a própria organização social, institucional e política se torna precária. O recado seria, então, o seguinte: as regras nada valem.

No entanto, tal transformação política e institucional não pode ser levada a cabo por simples vontade presidencial se ela não vier acompanhada pelo apoio da opinião pública e, também, das oposições.

(...)

O jogo agora é outro: separar os interesses partidários dos republicanos, obrigando todos os atores, por convicção ou não, a atuar segundo uma noção suprapartidária de vida pública. O desafio é certamente enorme, mas não será enfrentado se não for tentado. A consolidação de nossas instituições democráticas disso depende".

* * * * *

Para ler mais sobre a "faxina ética", clique aqui.

domingo, 14 de agosto de 2011

Apoio à faxina ética

Ponto de vista - 14 ago. 2011

Destaco mais uma reportagem d'O GLOBO intitulada "Escândalos em série". Desta vez uma entrevista (na verdade, parte dela) da jornalista Isabel Braga com o senador Cristovam Buarque. Uma repercussão da "faxina" realizada por Dilma nos ministérios, que tem causado descontentamento em sua própria base aliada. Aliada? O grifo é nosso:

"BRASÍLIA - O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), dizendo estar preocupado com a possibilidade de a presidente Dilma Rousseff perder apoio político por causa da faxina ética em seus ministérios, está promovendo junto com outros senadores uma ação para dar respaldo à iniciativa do Planalto contra a corrupção. Segundo ele, o movimento conta com o apoio de pelo menos 15 senadores, entre eles o gaúcho Pedro Simon (PMDB), que ocuparão a tribuna do Senado na segunda-feira para se solidarizar com Dilma e as ações do governo contra os desvios na administração pública. Segundo ele, se Dilma voltar atrás na faxina, para tentar recuperar o apoio dos partidos, perderá o apoio das ruas.

Por que um movimento para apoiar a presidente Dilma na faxina nos ministérios?

CRISTOVAM: Primeiro porque ela está fazendo o certo. E. segundo, porque estamos tão desmoralizados que, se de repente, falta apoio no Congresso porque a presidente faz a faxina, aí é a desmoralização completa. Somos um grupo disposto a dar suporte à faxina que ela fez, está fazendo e que achamos que ela precisa fazer mais.

Como avalia a reação dos partidos da base aliada?

CRISTOVAM: Base é quando os partidos se juntam em torno de bandeiras em comum. O que temos é uma aglutinação de políticos, sem uma bandeira que unifique. Se a faxina da presidente afetar interesses, a aglutinação que lhe dá apoio político pode desaparecer, e isso é preocupante. Se a presidente voltar atrás agora para acomodar os interesses feridos pela faxina, ela vai perder o apoio das ruas".

sábado, 13 de agosto de 2011

Os 50 anos do Muro

Ponto de vista - 13 ago. 2011

Os EUA e
o princípio da dívida

Destaco os parágrafos finais artigo "Crises em penca", na página 2 do Segundo Caderno d'O GLOBO de hoje, do colunista José Miguel Wisnik; apesar de recomendar todo o texto. O autor cita vários exemplos de acontecimentos dos últimos anos... parece que o mundo está ficando de ponta à cabeça. O grifo é nosso:

“(...) o império norte-americano topa com o índice do limite, que não lhe é habitual (uma mentalidade autocentrada e conservadora, profundamente arraigada, compacta e difusa, que não aceita limites para si, vai se deparando perigosamente com eles). Enquanto se disputa uma encarniçada batalha política pela ampliação do teto da dívida americana, que atinge o céu, o índice de confiabilidade da economia americana para honrar sua dívida é rebaixado por uma agência particular de orientação de investidores, remexendo numa cadeia de credibilidades que repercute nas outras grandes economias ocidentais e, portanto, em todas as outras.

Subterraneamente, as bases da civilização, tal como conhecemos, vão se encontrando com aquilo que a constitui e a atravessa: o princípio da dívida. Aumentar a dívida e ver diminuída a capacidade de pagar a dívida, no capítulo desta semana. A lógica do sistema, ao que tudo indica, é a de que a dívida não é para ser quitada nunca, e que seu aumento, em vez disso, dinamiza o sistema. Ao mesmo tempo, o sistema precisa secretar sinais, que não deixam de ser paradoxais, de limites virtuais na capacidade de pagar a dívida. Em suma, de um jeito ou de outro, vamos nos aproximando de limites de fundo, ao mesmo tempo em que eles se perdem, como nas violentas eclosões urbanas.

Obama declarou que os Estados Unidos precisam criar para si as condições de poder competir com China, Índia e Brasil. Duas civilizações milenares e uma completamente nova. Serão capazes de novos modelos? Agostinho da Silva passou por lunático ao dizer que sim, no começo dos anos 1960.

Eu já aprendi que essa novela não acaba tão cedo, e prefiro assim”.

* * * * *

A herança maldita da Guerra Fria

O artigo "O muro que veio até nós", do colunista Zuenir Ventura, na página 7, também é uma ótima reflexão sobre a história contemporânea. Motivado pelo aniversário da construção do emblemático Muro de Berlim, o escritor faz um breve panorama sobre a Guerra Fria e a sua influência no Brasil. O grifo é nosso:

O Muro de Berlim, que começou a ser construído há exatos 50 anos, tinha 155 km de comprimento, mas chegou até nós como importante marco da Guerra Fria. Também chamado Muro da Vergonha, porque com ele o governo comunista de Berlim oriental pretendia conter a fuga para o outro lado da cidade, separou literalmente amigos, famílias e uma nação, e dividiu simbolicamente o mundo, tornando-o bipolar e alvo da disputa das duas superpotências da época, os EUA e a URSS. Esses dois rivais procuraram estender seu poder e influência a todos os continentes. Os americanos intervieram no Vietnam, e os soviéticos no Afeganistão, e se envolveram direta ou indiretamente, segundo seus interesses, no Oriente Médio, na África, Ásia e na América do Sul. Em geral, pregavam uma coisa e faziam outra. Os EUA defendiam a democracia, a liberdade, mas apoiavam os regimes militares da Argentina, do Chile e do Brasil. A URSS lutava pelo socialismo, pela igualdade econômica, mas era governada por um tirânico partido único, que reservava para si os privilégios que negava ao povo.

No Brasil, os efeitos da Guerra Fria se fizeram sentir mais claramente por ocasião do golpe de 64, apoiado por ações da CIA e do então embaixador Lincoln Gordon, que alimentava o Departamento de Estado de seu país com informações confidenciais e sugestões. Muitos desses telegramas foram revelados depois, como o que quatro dias antes da tomada do poder pelos militares solicitava o envio de uma força naval “para intimidar os partidários de Goulart”. Em outra mensagem, ele sugeria que medidas fossem tomadas “o mais cedo possível para preparar uma entrega clandestina de armas não fabricadas nos EUA a serem entregues aos apoiadores de Castelo Branco em São Paulo”.

Para encobrir o envolvimento do seu país, o embaixador americano propunha que as armas fossem conduzidas por um "submarino sem marcas e descarregadas à noite em praias isoladas ao sul de Santos, no estado de São Paulo". Paralelamente à ajuda militar, Gordon não se descuidava do apoio da propaganda, recomendando que a CIA tomasse medidas para "encorajar o sentimento anticomunista no Congresso, nas Forças Armadas e em entidades estudantis, religiosas e profissionais".

O Muro de Berlim foi derrubado em 1989, mas a cultura da Guerra Fria deixou uma herança maldita cujos resíduos ainda se fazem notar no mundo atual, inclusive no Brasil: sectarismo, maniqueísmo, intolerância, a ideia de que as pessoas podem ser hierarquizadas ideologicamente, em suma, a crença de que o mal está sempre do lado oposto, e que o bem e a razão são exclusividade nossa”.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

JK e a herança dos engarrafamentos

Ponto de vista - 12 ago. 2011

Destaco, do jornal O GLOBO de hoje, o artigo do colunista de Arthur Dapieve, intitulado "Faixa seletiva. Onde a Brasil é mais Brasil". O excesso de carros circulando pelas ruas, o que gera incessantes tráfegos e acidentes fatais, seriam originários da política iniciada pelo presidente JK. Muita gente ganhou e muitos continuam ganhando. O ideal seria investir investir nos sistemas ferroviário e metroviário como transporte de massa e as pessoas deixarem seus carros em casa. Mas isso acontecer, são outros quinhentos... Incomodaria quem sempre ganhou com a situação e também atrapalharia o sonho dos emergentes desde as classes mais baixas; do dono do carrão importado, ao do trabalhador mais humilde que sempre economizou para ter seu carro. Vai dizer para ele deixar o carro em casa e ir de trem... O grifo é nosso:

"(...)

Com a quantidade de veículos que desde a década de 1950 chega às nossas ruas, ora mais, ora menos, nunca haverá malha viária suficiente para acolhê-los. Que dizer de fazêlos andar a velocidade razoável... Talvez apenas se derrubarmos todas as outras construções e passarmos todos a dormir, trabalhar, ver cinema, jogar bola, viver sobre rodas. Uma sociedade hiperdesenvolvida para voltar a ser nômade.

O pecado original está lá atrás, na opção de Juscelino Kubitschek pela indústria automobilística como motor do desenvolvimento que ele vislumbrava para o Brasil. Com nossas dimensões territoriais e populacionais, muito mais atenção deveria ter sido prestada aos trens e demais formas de transporte coletivo, é o óbvio ululante.

Creio, entretanto, que optou-se pelo carro particular não só como um meio de transporte, mas também de desmobilização política. O individualismo intrínseco à posse de um veículo dificulta a articulação — inclusive dos próprios motoristas particulares — em prol dos interesses da coletividade — ou, ao menos, de uma fatia dela.

É muito difícil, para não dizer impossível, voltar atrás nessa história. Soaria como mais intromissão do Estado nos direitos do cidadão. E, com a ascensão da Classe C, do cidadão que tem o direito de sonhar. Além disso, a indústria automobilística carrega não apenas esse sonho de afluência, mas também a sanha tributária do Estado.

Ganha-se tanto dinheiro em impostos sobre veículos e combustíveis, e desvia-se tanto dinheiro público na construção e reconstrução de ruas e estradas, que seria mesmo muito ingênuo acreditar em mudança de política a essa altura do campeonato. Quando a economia mundial ameaça congelar, como agora, o governo corre a desonerar a produção de automóveis, o que só reforça o quadro de “carrodependência” pátria. Por outro ângulo, ela se reflete em algo em torno de cem mortes diárias no trânsito.

Não, não vale o papo de que “uso carro porque o transporte público é péssimo”. Sim, isso é tão verdadeiro quanto “o transporte público é péssimo porque uso carro”.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Os malfeitores e as meninas super poderosas

Ponto de vista - 10 ago. 2011

Mais um dia foi corrido e de leitura apressada do jornal. Dou destaque para a reportagem de Maria Lima e Isabel Braga, na página 12 d'O GLOBO, intitulada "Aliados temem 'bola de neve' nas demissões". Políticos evocam a solidadariedade entre os partidos, mas não para o bem do povo e da moralidade; e sim para se autoprotegerem em seus acordos espúrios. E ainda fazem ameaça velada à presidente: não mexam com a gente ou seu governo não chegará até o fim. O grifo é nosso:

BRASÍLIA - Em reuniões políticas ao longo do dia de ontem, parlamentares experientes e integrantes do chamado baixo clero manifestaram preocupação de que uma onda de denúncias abata ministros e gestores públicos, indiscriminadamente, originando uma bola de neve da qual ninguém escape. O cenário traçado era de descontrole da cúpula do Planalto.

Todos os líderes diziam que é preciso mais cautela e solidariedade entre os partidos, lembrando, inclusive, que urna crise política levou à nova crise econômica americana.

Não são poucos os que alardeiam que desse jeito "Dilma não aguenta até o fim do governo". Para eles, não basta mais a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, se reunir com os lideres: é preciso uma reunião de emergência com Dilma para "colocar o guizo em seu pescoço".

Há uma crítica generalizada sobre a condução de Dilma, Ideli, e Gleisi Hoffmann, ministra da Casa Civil, apelidadas de "meninas super poderosas".

— A situação está totalmente sem controle. A presidente Dilma pode estar aceitando no mérito, mas errando na operacionalização. Como a centralização é muito forte, elas estão meio sem rumo — comentou um desses interlocutores.

Na reunião de Ideli com a bancada do PMDB, o líder Renan Calheiros fez um alerta direito, segundo um dos presentes:

— A bancada está coesa com a presidenta. Entretanto, é preciso que ela preste mais atenção à relação com a base para evitar urna ruptura, que isso vire uma bola de neve.

—A situação preocupa pela série de acontecimentos e reflexos destes acontecimentos no Congresso num momento em que não se sabe para onde o mundo vai — completou o senador Delcídio Amaral (PT-MS). Os líderes alegam que é preciso discutir estratégias com Dilma. Um deputado petista chegou a afirmar: —Além dos problemas com os outros partidos da base, o PT está extremamente constrangido porque a presidente está desmontando um governo que deu certo.

Em almoço no apartamento do líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), os líderes aliados deixaram claro ao líder do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP), a insatisfação.

—As três meninas superpoderosas ficam fazendo a faxina, e é bonito para a sociedade. Mas não entendem que não podem liquidar com o espectro político nacional em troca de ficar bem com a sociedade — disse um dos líderes.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Hiroshima e outras tragédias

Ponto de vista - 09 ago. 2011

Hoje o dia foi corrido e a leitura do jornal apressada. Destaque para o artigo do Arnaldo Jabor, intitulado "Hiroshima, meu amor", publicado na página 10 do Segunda Caderno d'O GLOBO, com perspicazes reflexões sobre eventos históricos e as heranças por eles deixadas. O grifo é nosso:

"Outro dia tentei ver o filme "Hiroshima, Meu Amor", de Alain Resnais, e não consegui; parei no meio porque as cenas documentais inseridas na história são insuportáveis mesmo para nossos olhos já acostumados a horrores.

Há 66 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945, os norte-americanos destruíram Hiroshima e Nagasaki. Todo ano me repito e escrevo artigos parecidos sobre a bomba nessa data. Mataram 150 mil pessoas em minutos e repetiram o feito três dias depois. Escrevo sempre sobre esse fato histórico, sobre essa tragédia extra depois do Holocausto, não para condenar um dos maiores crimes da humanidade, mas para lembrar que o impensável pode acontecer a qualquer momento.

A situação no Oriente Médio, mesmo com a "Primavera Árabe" ainda meio ilusória, tende a um conflito entre os cada vez mais poderosos Irã e Israel, com o corrupto Paquistão atômico ao lado da Índia também atômica. Sem falar no chiqueiro da Coreia do Norte.

Ou seja, vivemos ainda na era inaugurada por Hiroshima.

Lá e em Nagasaki, inaugurou-se a "guerra preventiva" como chamamos hoje.

Enquanto o Holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século XX, o espetáculo luminoso de Hiroshima marca o início da guerra do século XXI. O horror se moderniza, mas não acaba.

Auschwitz e Treblinka ainda eram "fornos" da Revolução Industrial, eram massacres "fordistas", mas Hiroshima inventou a guerra tecnológica, virtual, asséptica. A extinção em massa dos japoneses no furacão de fogo fez em um minuto o trabalho de meses do nazismo.

O que mais impressiona na destruição de Hiroshima é a morte "on delivery", "de pronta entrega", sem trens de gado humano, morte "clean", anglo-saxônica. A bomba norte-americana foi considerada uma "vitória da ciência".

Os nazistas matavam em nome do ideal psicótico e "estético" de "reformar" a humanidade para o milênio ariano. As bombas norte-americanas foram lançadas em nome da "razão". Na luta pela democracia, rasparam da face da Terra os "japorongas", seres oblíquos que, como dizia Truman em seu diário, "são animais cruéis, obstinados, traidores". Seres inferiores de olhinho puxado podiam ser fritos como "shitakes"...

A bomba A agiu como um detergente, um mata-baratas. A guerra como "limpeza", o típico viés norte-americano de tudo resolver, rápida e implacavelmente...

A destruição de Hiroshima foi "desnecessária" militarmente. O Japão estava de joelhos, querendo preservar apenas o imperador e a Monarquia. Diziam que Hitler estava perto de conseguir a bomba - o que é mentira.

Uma das razões reais era que o presidente e os "falcões" da época queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: "Uau! É o mais fantástico aparelho de destruição jamais inventado! Uau! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!...". O clima era lúdico e alucinado... tanto que o avião que largou a bomba A em Hiroshima tinha o nome da mãe do piloto na fuselagem - "Enola Gay". Esse gesto de carinho derreteu no fogo 150 mil pessoas. Essa foi a mãe de todas as bombas, parindo um feto do demônio.

Os norte-americanos queriam vingar Pearl Harbour, pela surpresa de fogo, exatamente como o ataque japonês três anos antes. Queriam também intimidar a União Soviética, pois começava a Guerra Fria; além, claro, de exibir para o mundo um show "maravilhoso" de som, luz e fúria, uma superprodução a cores do novo Império.

O espantoso também é que o Holocausto sujou o nome da Alemanha (até hoje), mas Hiroshima soa como uma vitória tecnológica "inevitável". Na época, a bomba explodiu como um alívio e a opinião pública celebrou tontamente. Nesses dias, longe da Ásia e da Europa, só havia os papéis brancos caindo como pombas da paz na Quinta Avenida sobre os beijos de amor da vitória.

Naquele contexto, não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime hediondo. A época estava morta para palavras, na vala comum dos detritos humanistas.

Hoje, a época está de novo morta para palavras, insuficientes para deter ou mesmo descrever os fatos.

Agora, não temos mais a guerra fria; ficamos com a guerra quente do deserto - a mais perigosa combinação: fanatismo religioso e poder atômico. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado, a cruzada errada do Ocidente, apesar de Obama, que foi contra e hoje tem de resolver os crimes do Bush.

Do outro lado, temos os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte.

Hoje, já há uma máquina de guerra se programando sozinha e nos preparando para um confronto inevitável no Oriente Médio. Estamos num momento histórico onde já se ouvem os trovões de uma tempestade que virá. Os mecanismos de controle pela "razão", sensatez, pelas "soft powers" da diplomacia, perdem a eficácia. Instala-se um progressivo irracionalismo num "choque de civilizações"; sim, sei do simplismo da análise do Huntington em 1993, mas estamos diante do simplismo da realidade, formando uma equação com mil incógnitas impossíveis de solucionar.
Como dar conta da alucinação islâmica religiosa com amor à morte do Paquistão, da Índia, de Israel, do Irã dominado por ratos nucleares em breve, da invencibilidade do Afeganistão, com a "hiper-direita" de Israel com Bibi, com o Hamas ou o Hezbollah que querem impedir o "perigo da paz"? E agora, com a súbita vitória dos "tea parties" na América e a porrada que deram no Obama?

"There is a shit-storm coming" - disse Norman Mailer uma vez.

A crença na razão ocidental foi ferida por dois desastres: o 11 de Setembro e a era Bush-Cheney, que pode renascer agora. A caixa de Pandora que Bush abriu nunca mais se fechará.

Sente-se no ar o desejo inconsciente por tragédias que pareçam uma "revelação". Historicamente, sempre que uma situação fica insolúvel, prosperam as ideias mais irracionais, mais boçais para "resolver" o problema. Mesmo uma catástrofe sangrenta parecerá uma "verdade" nova. Já imaginaram os "tea parties" no Poder?"

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A praça é nossa

Ponto de vista - 08 ago. 2011

Falar corretamente

Na página 6 d'O GLOBO de hoje, o artigo intitulado "A grande batalha é cultural" de Julio María Sanguinetti - ex-presidente do Uruguai. Destaco um trecho. O grifo é nosso:

"(...) Temos falado desses temas e alguns se surpreendem com o enfoque sobre a necessidade de falar corretamente. Certamente, sabe-se que a língua é um modo de pensar, mas além disso, socialmente, um vital instrumento de ascensão.

Ninguém pode subir na escala social usando um pobre idioma vulgar, inábil para fazer uma apresentação de temas econômicos, científicos, históricos ou de qualquer complexidade do conhecimento. Que o idioma incorpore expressões populares é algo aceito por todas as academias modernas, mas, quando a linguagem vulgar substitui a culta, condenamos à pobreza endêmica os que não sabem se expressar como requer qualquer atividade importante. (...)"

* * * * *

A praça é nossa

Também n'O GLOBO de hoje, mas na página 18, a reportagem intitulada "Velhas histórias de uma renovada Praça Tiradentes", de Ludmilla de Lima. Ela dá destaque para as permanências e mudanças da Praça Tiradentes, do Centro da cidade do Rio de Janeiro, que podem ser observadas comparando a paisagem atual da prala recém renovada com fotografias e postais da virada do século XIX para o XX. Destaco um trecho:

“Se não fosse pela estátua de Dom Pedro I, que reina soberana há quase 150 anos no meio da paisagem, poucos reconheceriam a renovada Praça Tiradentes em velhas fotos. Em séculos de história, a praça, que já foi chamada, entre outros nomes, de Rossio, Campo dos Ciganos e Constituição, sofreu diversas transformações urbanísticas, sendo a última a retirada do gradil que a cercava. A medida não só devolveu a liberdade à Praça Tiradentes, corno também ao olhar do cariocas, que agora podem observar e apreciar vestígios de um Rio antigo sem a sombra de ferros.
Em fotografias e postais do passado, é possível ver o monumento, inaugurado em 1862, rodeado por diferentes cenários. (...)”.


Essa "brincadeira" entre passado e presente, você encontra no GRIFO NOSSO em "A praça é do povo... ontem e hoje"; e em "Quase um século". É só clicar.

domingo, 7 de agosto de 2011

Estrangeiro em toda parte

Ponto de vista - 07 ago. 2011

Cara errada

Sensacional o artigo de João Ubaldo Ribeiro, hoje, na página 7 d'O GLOBO; intitulado "Vida arriscada". Quem viaja, entende bem o que é isso:

"(...) O noticiário norueguês me lembra outra vez de que tenho a cara errada em toda parte. Tenho cara de turco na Alemanha, cara de árabe na França, cara de hispano nos Estados Unidos, cara de latino-americano na Espanha, cara e fala de brasileiro em Portugal, cara de nordestino, cara de mestiço, um desastre em toda a linha. Mas não será por isso que eu vou desistir de viajar. (...)"

* * * * *

"Prioridade zero" do governador. Onde nós vamos parar?

A carta de um leitor, intitulada "Educação para quê?", publicada na página 8 d'O GLOBO, uma conclusão que deveria ser levada em conta com maior seriedade pelos eleitores do Estado do Rio de Janeiro. O grifo é nosso:

"Milhões são gastos na centésima reforma do Maracanã. Outros milhões gastos com o sorteio das eliminatórias da Copa do Mundo. Muito dinheiro gasto com futebol, pensando (na melhor hipótese) no lucro do turismo (curto prazo). Gastar em educação, não. Afinal, estes caras só são professores: não aprenderam a jogar futebol. Educação não é prioridade para o governo do Estado do Rio de Janeiro.
Luiz Almeida (Rio)"

* * * * *

Luz no fim do túnel contra clientelismo?

Enquanto a principal reportagem do Extra Online de hoje ("Centros sociais: vereadores da Baixada prestam por ano 68.640 atendimentos") constata a força do clientelismo na política da Baixada Fluminense - onde esse número de atendimentos "equivale a 22% do que é realizado nos postos de saúde municipais localizados nas mesmas áreas dos chamados 'prontos-socorros eleitorais'"; o editorial d'O GLOBO (p. 6) consegue enxergar uma pequena luz no fim do túnel, a partir da ação de certos movimentos de resistência cujas ações ajudam no amadurecimento do eleitorado. O grifo também é nosso:

Interior do Rio reage ao clientelismo

O interior do Estado do Rio tem decepcionante histórico de ações clientelistas que produz personagens dos quais é mais fácil extrair prontuários do que boas ideias e exemplos de serviços prestados à sociedade. Denúncias de desvios de verbas, abuso de poder, nepotismo, cobrança de propinas em licitações públicas, superfaturamento de contratos, propaganda indevida, irregularidades em compras de merenda e material hospitalar são temas recorrentes quando se faz um balanço da atuação de políticos que, eleitos à custa da boa-fé dos eleitores, acabam perpetuando no exercício dos mandatos práticas que atentam contra a ética e levam invariavelmente ao caminho dos cofres públicos.

Pois é desse cenário nebuloso que têm soprado ventos de renovação no modo de se exercer a representatividade. Não da parte dos maus protagonistas de sempre da cena política, mas graças ao despertar de outros atores — no caso, a sociedade organizada em suas entidades e protegida por organismos institucionais de fiscalização como o Ministério Público, o TCE e controladorias. Trata-se de saudável, oportuna e fundamental reação a práticas deletérias na administração pública, com resultados estimulantes.

Em Teresópolis, um dos municípios devastados pelas enchentes do início do ano, consolidou-se, com o afastamento do prefeito Jorge Mário (ex-PT), um movimento de resistência local contra uma administração atolada em denúncias de desvio de verbas destinadas à recuperação da cidade arrasada pelas chuvas, fraudes em licitações e outras deletérias rubricas.

Em Magé, capitania da família Cozzolino, o arejamento político custou o cargo à prefeita Núbia Cozzolino, cassada por malfeitos no Executivo municipal, e substituída na eleição de um representante da oposição. Em Nova Friburgo, as suspeitas de malversação de recursos levaram à convocação de uma CPI na Câmara local, à entrada em cena do Ministério Público Federal, que chegou a solicitar à Justiça o afastamento do prefeito Dermeval Barboza, e até à mobilização de agentes da Polícia Federal para garantir a entrega de documentos exigidos por procuradores federais para analisar contas municipais. Já em Petrópolis, os últimos seis meses mostraram um alto nível de mobilização popular, em torno de um manifesto capitaneado pela diocese local que cobra rapidez na reconstrução das áreas atingidas. Desse movimento surgiu a Frente Pró-Petrópolis, e há também ações diretas da Igreja de assistência às vítimas das enchentes.

São exemplos de que a vigilância da sociedade é capaz de mudar maus hábitos, e particularmente animadores num momento político do país em que a ética e a honestidade não são valorizadas na vida pública. Os MPs, os tribunais de contas e demais órgãos de controladoria, bem como entidades não contaminadas por interesses partidários oportunistas, são legítimos instrumentos de pressão contra autoridades que, fechadas as urnas, nelas deixam enterrados os compromissos eleitorais. Que esses movimentos de resistência no interior fluminense sejam dinâmicos o suficiente para barrar o clientelismo local, servir de paradigma a outras regiões brasileiras e ajudar no amadurecimento do eleitorado.

sábado, 6 de agosto de 2011

Carro na ciclovia; bicicleta na calçada (5)

Ponto de vista - 06 ago. 2011

Ciclistas devem cumprir a lei

Continua, ainda, o tema "Bikes na calçada" na seção de cartas de leitores n'O GLOBO (p. 8). O grifo é nosso:

"Ainda sobre bicicletas ou triciclos trafegando em cima das calçadas, devo lembrar que existe uma lei que proíbe o ato. Devo lembrar, também, que nosso país está na situação lamentável em que se encontra porque as leis não são cumpridas, apesar de existirem e aos milhares. Acho que isso define a discussão. Aliás, não sei como as pessoas viviam antes de o primeiro iniciar a prática, que já resultou em inúmeros acidentes graves.
Luiz Fernando Lopes (Rio)

Gostaria de saber por que os ciclistas reclamam de pedestres na ciclovia e por que as bicicletas tornam as áreas de lazer aos domingos, abandonando a ciclovia? Se andar de bikes é ser amante da natureza, cuidar da saúde, por que essa praga de bikes motorizadas, skates motorizados? Outro dia, na orla da Zona Sul, até um senhor andava de kart na ciclovia e os guardas municipais, rindo. Então, amantes de bikes, pensem bem antes de se sentirem prejudicados e passem a dar o exemplo, como parar a bicicleta quando o sinal abrir para os pedestres atravessarem a rua.
Marcos Ferreira (Rio)"


Para ver as cartas anteriores, é só clicar: terça-feira, quarta-feira, quinta-feira e sexta-feira.

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Capital das bikes

Falando em bicicleta, o tema da semana por aqui; o blog "De bike", d'O GLOBO Online, reproduziu uma reportagem do jornal impresso sobre os esforços da capital inglesa para popularizar mais ainda o uso da bicleta como meio de transporte. O título: "LONDRES, a nova capital das bikes". O grifo é nosso:


"(...) Os turistas se beneficiaram ainda de uma outra medida que, desde dezembro do ano passado, permite alugar uma bicicleta por 24 horas, com uma 1 libra esterlina (R$ 2,50), usando apenas um cartão de crédito com chip.

As bicicletas são excelentes para jornadas curtas. Um outro atrativo é que você não precisa se preocupar com segurança ou manutenção, ao contrário do que acontece com bicicletas particulares. É também uma opção menos antissocial: grupos de amigos podem pedalar juntos
(...)".


Para ler a matéria na íntegra, clique aqui.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Carro na ciclovia; bicicleta na calçada (4)

Ponto de vista - 05 ago. 2011

A calçada é de quem, afinal?

E segue o tema "Bikes na calçada" na seção de cartas de leitores n'O GLOBO (p. 8). O grifo é nosso:

"Moro há quatro meses no Rio de Janeiro e tenho percebido uma variação da coisa normal e lógica. As calçadas são usadas por veículos, ciclistas e donos de cachorros que nem limpam as necessidades dos animais. Cadeirantes, idosos e quem precisa andar na calçada está proibido, ou seja, vire-se. Parece que as autoridades estão em ritmo de festa. Nada fazem e ficam vendo a banda passar? Por favor, srs., mexam-se!
Demito Darigoto (Rio)

Não adianta o prefeito Eduardo Paes estimular o uso da bicicleta como meio de transporte, lazer e hábito sadio. É preciso criar condições necessárias. Primeiro: regulamentar o Código Nacional de Trânsito, omisso quanto ao assunto. A rua é dos carros e a calçada é dos pedestres. Mas qual é o lugar das bicicletas? É bem verdade que motoristas, ciclistas e pedestres são indisciplinados. Segundo: é preciso reconhecer a importância do ciclismo como transporte, hábito sadio para a manutenção da saúde e como lazer, criando ciclovias e fazendo com que elas sejam respeitadas. E terceiro: que as autoridades realizem, constantemente, campanhas educativas para pedestres, motoristas e ciclistas, para que desenvolvam o respeito mútuo.
Maria Helena Dias (Rio)"


Para ver as cartas anteriores, clique aqui, aqui e também aqui.

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Maus hábitos alimentares e impostos

No caderno de Opinião d'O GLOBO (p. 6), um artigo de Mark Bittman, que é um especialista em alimentos que escreve no "New York Times", intitulado "Taxe alimentos prejudiciais e subsidie os bons". Aumentar impostos de alimentos prejudiciais à saúde para desestimular o seu consumo seria algo benéfico ou causaria mais uam injustiça social? O grifo é nosso:

"O que será preciso para mudar os hábitos alimentares dos americanos? A necessidade é indiscutível uma vez que doenças cardíacas, diabetes e câncer são em grande parte causados pela Dieta Padrão Americana. (...), a indústria alimentícia parece incapaz de oferecer alimentos mais saudáveis. Sua missão não é a saúde pública, mas o lucro. (...) A "outra força" deveria ser o governo federal, em seu papel de agente do bem comum, estabelecendo um ousado padrão nacional. Em vez de subsidiar a produção de alimentos prejudiciais à saúde, deveríamos virar a mesa e criar impostos sobre refrigerantes, batatas fritas, guloseimas e aperitivos hiperprocessados. A renda resultante seria destinada a um programa que estimulasse a alimentação sadia dos americanos, ao tornar comida saudável mais barata e amplamente disponível. (...)
Simples assim: o imposto reduziria o consumo de alimentos prejudiciais e geraria bilhões de dólares por ano. O dinheiro seria usado para subsidiar a compra de alimentos como verduras, legumes, grãos, legumes desidratados e frutas. (...)
O programa, obviamente, preocuparia a indústria de alimentos. Também poderia desagradar aos que teriam que pagar mais por refrigerantes e batatas fritas e que sustentam que isso violaria seu direito de comer o que bem entendem. Mas saúde pública é responsabilidade do governo e nossa dieta está no mesmo nível de outras responsabilidades públicas, como tratamento da água e transporte de massa.
Alguns defensores dos pobres dizem que essa taxação seria injusta porque pessoas de baixa renda teriam de gastar uma percentagem maior de seu dinheiro em alimentação e teriam mais dificuldade em comprar refrigerante (...)”.


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Fosso da vergonha

Na página 31 d'O GLOBO a reportagem intitulada "Grécia constrói fosso anti-imigrante". Depois dos muros da vergonha - símbolos do capitalismo - entre EUA e México, Israel e Cisjordânia, e entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul; o mundo se depara com essa notícia do "fosso medieval" de uma Grécia em crise, tentando conter a entrada de turcos imigrantes. O grifo é nosso:

"ATENAS. A ideia parece ter sido tirada de um livro da Idade Média, mas a tecnologia usada será do século XXI. Para reforçar a segurança de sua fronteira com a Turquia — por onde entraram 90% dos imigrantes ilegais que chegaram ao país no ano passado — a Grécia anunciou ontem a conclusão da primeira etapa de uma fossa coberta de água, que terá 120 quilômetros de comprimento, 30 metros de largura e sete de profundidade. Para dificultar ainda mais a entrada das quase 250 pessoas que cruzam ilegalmente a fronteira todos os dias (...) a vala será cercada por arame farpado, câmeras térmicas e sensores de movimento. (...)

Até agora, 14 quilômetros já foram cavados, despertando críticas de organizações de direitos humanos e até da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) — sem contar setores da oposição grega, que se questionam se os gastos são realmente necessários para um país asfixiado por uma dívida de 350 bilhões. (...)

Há anos o governo grego acusa a Turquia de não empregar esforços para impedir que dezenas de milhares cruzem a fronteira anualmente em direção à Grécia. Em janeiro, o país já havia anunciado a construção de grades em 13 quilômetros da fronteira, mas teve que voltar atrás depois de ter recebido críticas da ONU e da Comissão Europeia. (...)".